Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


1° Capítulo: Vida e Obra de Suzuki Shôsan


2. A Vida de Suzuki Shôsan

Tesshin Suzuki editou juntamente com a obra de Shôsan alguns textos biográficos compostos por seus discípulos e estudiosos posteriores, nos quais nos baseamos para expor este breve resumo da vida do Mestre de Mikawa1. Outro importante subsídio é o Roankyô coletânea de palavras e pequenos episódios da vida de Shôsan, que também consta da compilação de Tesshin Suzuki2.

Suzuki Shôsan nasceu em 1579 na aldeia de Shigeoka, feudo de Mikawa, filho de uma família oriunda de Kumano que há várias gerações se transferira para Mikawa, onde passara ao serviço da família Matsudaira (Tokugawa). Educado como samurai, durante 40 anos Shôsan serviu os Tokugawa como hatamoto antes de ingressar na vida monástica. Em 1600, com 26 anos de idade, combateu em Sekigahara sob as ordens de Honda Sadonokami, um dos principais generais de Ieyasu. Em 1614 e 1615 participou das campanhas contra os Toyotomi entrincheirados no Castelo de Osaka, distinguindo-se por bravura militar sob as ordens do Xogum Hidetada. Como recompensa por seus feitos de bravura recebeu em 1615 um feudo de 200 koku em sua terra natal. Durante os últimos anos de vida de Ieyasu passou a servi-lo em seu retiro de Sumpu, mas morrendo Ieyasu, mudou-se para Edo onde serviu o Xogum Hidetada, residindo então no bairro de Surugadai. Desde sua juventude ele se interessava pelo Budismo e procurava manter relações com mestres do Budismo Zen, como Ungo Kiyô, Gudô Tôshoku e Daigu Sôchiku, da Escola Rinzai, e Man-An Eishu, da Escola Sotô. Em 1620, com 42 anos de idade, abandonou a vida profana e se tornou monge budista, fazendo-se iniciar possivelmente por Daigu Sôchiku. Abandonou então seu nome laico de Masamitsu e adotou o nome monástico de Shôsan. Declarou em certa ocasião que seu interesse pelo Budismo foi despertado pelo teatro clássico Nô, arte a que se dedicava com especial carinho e, um trecho do Roankyô, revela que aos 42 anos sentiu tamanho desespero e desprezo pelo mundo que quase tentou o suicídio, tendo sido impedido pelos companheiros que o aconselharam a se tornar monge3.

Ordenado monge, durante sete anos percorreu os principais templos e santuários do Japão, procurando se instruir com vários mestres. Em 1622 internou-se no famoso mosteiro de Hôryûji, em Nara, onde se entregou ao aprendizado das regras monásticas e ao estudo teórico das doutrinas do Budismo. Em 1623 isolou-se numa ermida do monte Chidori para a prática da meditação com jejum que o deixou doente e quase lhe custou a vida. Em 1624 voltou para sua terra natal onde, no valo de Ishonotaira, perto do Castelo de Okazaki, estabeleceu uma ermida que em 1632 foi transformada em templo com o nome de Onshinji. Fez ele desse templo o centro de duas atividades, embora viajasse constantemente para Edo e outras localidades, para estudo e atividades pastorais. Em 1639 teve a experiência do Satori, a Iluminação pregada pelo Budismo Zen. Em 1642 eu irmão Shigetoki, que como vassalo do Xogum participara da repressão da revolta de Shimabara e se tornou posteriormente delegado do Xogum em Amakusa, convidou-o para ajudá-lo a reconverter ao Budismo aos campônios cristianizados da região. Shôsan permaneceu três anos em Amakusa, onde construiu 32 templos budistas e redigiu seu famoso tratado Ha-Kirishitan (Contra os Cristãos), em que critica as principais teses do Cristianismo ensinado pelos Jesuítas à luz do Budismo. Em 1648 foi para Edo, onde ficou até sua morte em 1655, entregue a atividades pastorais, ao estudo e à redação de suas obras. Data dessa última fase a redação do Banmin Tokuyô, cuja redação definitiva ficou pronta em 1652. Em 1660 seu discípulo Echû editou o Roankyô e em 1672 outra coletânea póstuma, o Hogoshû. Shôsan deixou cerca de 50 discípulos monges e numerosos fiéis leigos.


1. SUZUKI (Tesshin) – Suzuki Shôsan Dôjin Zenshû, Tokyo, Sankibô, 1962, p. 1-48.
2. SUZUKI (Tesshin) – op. cit., p. 138-284.
3. ROANKYÔ II:13 in SUZUKI (Tesshin) op. cit. p. 241, 242.


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