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Ricardo
Mário Gonçalves
Introduzido no Japão a partir dos fins do século XII, o Zen implantou nesse país a valorização do trabalho manual. Cumpre notar, porém, que independentemente da tradição Zen, já existia no Budismo do Japão uma atitude positiva em relação ao trabalho, documentada nos registros dos ensinamentos orais – Kuden Hômon – dos mestres da Escola Tendai.1 A Escola Tendai se baseia no Saddharma Pundarika Sutra (Sutra do Lótus da Lei Excelente), importante texto da tradição Mahayana no qual encontramos, como já vimos, uma valorização positiva das atividades profanas. Nos registros das instruções orais dos Mestres Tendai encontramos a idéia de que todos os fenômenos da natureza, como a luz do Sol e da Lua, os vegetais, a terra, etc. são elementos que a Grande Compaixão de Buda coloca à disposição do homem para beneficiá-lo. Na medida em que exercem a ação compassiva de beneficiar o homem, os elementos da natureza são considerados participantes da Natureza de Buda. Os bens materiais que alguém acumula são também um aspecto dessa ação compassiva de Buda, uma vez que auxiliam o homem a sobreviver. As atividades profissionais, que permitem ao homem se beneficiar com os elementos da natureza e acumular bens materiais são vistas como um caminho de realização espiritual. “O trabalho dos plantadores dos arrozais e das roças, as tenazes dos ferreiros e as agulhas dos médicos são aspectos da Doutrina da Iluminação Original; as diferentes profissões do homem são diferentes aspectos da Doutrina.” – diz o Shuyôshû , um dos registros escritos desses ensinamentos orais. As idéias de Shôsan sobre o trabalho seguem essa mesma linha de pensamento. Quanto ao Budismo Zen propriamente dito, encontramos na literatura japonesa inúmeros exemplos de valorização positiva do trabalho manual, particularmente nas obras do Mestre Dôgen, introdutor no Japão da Escola Sotô Zen2. Conta-se que quando o navio que levava Dôgen à China chegou ao porto de Ning-Po, um velho monge chinês subiu a bordo. Era o cozinheiro-chefe do Templo de Ikuôzan e vinha comprar cogumelos japoneses para a despensa do templo. Dôgen entabulou conversa com o monge e convidou-o a passar a noite no navio, alegando que alguém no templo o substituiria em suas funções, caso ele se demorasse fora. Retrucando que Dôgen não conhecia nada de Budismo, o cozinheiro se retirou. Em outra ocasião, quando praticava o Zen no Templo Tendôzan, na China, Dôgen viu um velho monge, numa tarde de calor, todo curvado e enrugado, coberto de suor, sem um chapéu de palha sequer para se proteger dos raios ardentes do sol, varrendo o pátio do templo. Dôgen disse-lhe que ele poderia encarregar um monge mais jovem desse serviço ou, pelo menos, esperar que o sol declinasse e a temperatura ficasse mais fresca. O monge retrucou que se ele passasse seu serviço para outro, não seria mais seu próprio serviço e que o tempo, que passa rapidamente e é irreversível, deve ser totalmente aproveitado. Esses incidentes impressionaram profundamente Dôgen que, regressando ao Japão, conferiu extrema importância ao trabalho manual em sua comunidade monástica de Eiheiji. Entretanto, Dôgen é antes de tudo um monaquista intransigente. Nas obras de sua mocidade mostra uma certa abertura para os leigos e recomenda a prática da meditação Zen tanto aos monges quanto aos leigos, mas posteriormente adota a posição de que só os monges conseguem alcançar a realização espiritual através do Zen. Com seu Budismo Laico, Shôsan se insurge frontalmente contra Dôgen, embora pertencendo formalmente à Escola Sotô. Uma valorização mais positiva do trabalho, com abertura para o laicato, é encontrada no Shasekishû (Coletânea de Areia e Pedras), coleção de contos budistas piedosos elaborada pelo monge Mujû Ichien (1226-1312), pertencente à Escola Rinzai. Embora monge Zen, Mujû revela em sua obra um ecletismo que abrange não só as demais escolas budistas, mas também o Taoísmo, o Confucionismo e o Xintoísmo. Em um dos contos encontramos a seguinte exposição sobre o valor das atividades no mundo profano:
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