Ricardo Mário Gonçalves
Uma Obra de Ética Econômica Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


Conclusão: A Modernidade do Pensamento deo Suzuki Shôsan


Eis-nos enfim no término deste estudo sobre a ética econômica de Shôsan. Acreditamos ter realizado nosso objetivo fundamental, ou seja, constatar a existência, no Japão do século XVII, de um pensador budista com idéias modernizantes e racionalizantes referentes à ética econômica: valorização da idéia de lucro e conversão da profissão em uma atividade ascética. Shôsan não representa um caso isolado, embora talvez nenhum outro autor budista japonês tenha anunciado tais idéias com tanta clareza. Os místicos amidistas leigos denominados Myôkônin também valorizaram a vida profissional como uma via ascética e o Mestre Jiun da Escola Shingon retomou, no século XVIII, a preocupação de Shôsan em pregar um caminho de realização budista para leigos. Isso sem falar dos movimentos sincréticos populares como o Shingaku Dôwa , magistralmente estudado por Robert N. Bellah, que difundiu idéias semelhantes. É nossa intenção estudar futuramente esses outros pensadores budistas do Período Tokugawa para eventualmente mais tarde estarmos em condições de nos arriscarmos a tirar algumas conclusões sobre o papel exercido pelo Budismo no processo de modernização do Japão.

No que toca a Shôsan, podemos concluir que, não obstante as enormes diferenças nas premissas dogmáticas, as conseqüências práticas de sua ética são as mesmas das idéias dos pensadores protestantes em que Max Weber viu um dos fatores que estimularam o desenvolvimento do Capitalismo no Ocidente: santificação da profissão, estímulo à ação desenvolvida dentro do mundo profano e, finalmente, um ideal de vida ascética e frugal, favorável à acumulação de capitais. A diferença maior está, como já observamos, no fato de que no caso da ética puritana ocidental, o estímulo ao incremento das atividades capitalistas foi indireto e, de certa forma, feito à revelia dos Reformadores, que de nenhuma maneira estavam preocupados em fomentar o lucro e a riqueza. Em Shôsan, porém, o encorajamento à atividade produtiva e criadora de riquezas é clara e diretamente manifestado.

Em suma, acreditamos que uma das explicações para o milagre do desenvolvimento econômico japonês no mundo contemporâneo deve ser buscado no Japão tradicional: na existência de uma mentalidade favorável às atividades de natureza capitalista, expressa no pensamento de líderes budistas como Suzuki Shôsan. Em eventuais estudos futuros apresentaremos outros autores com idéias semelhantes.


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