Ricardo Mário Gonçalves
Departamento de História da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo


Uma Obra de Ética Econômica
Budista do Japão Pré-Industrial
Estudo sobre o Banmin Tokuyô de Suzuki Shôsan (1579-1655)


Tese de Livre-Docência apresentada ao Departamento de História da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

(Para minha esposa Yvonette Silva Gonçalves)

São Paulo - Brasil - 1977


Introdução: A Importância do Estudo de Suzuki Shôsan

Nas primeiras décadas de nosso século, os estudos de Max Weber, E. Troeltsch, R. H. Tawney, Werner Sombart e outros chamaram a atenção para as relações existentes entre o pensamento religioso e a vida econômica. Preocupados com o problema da formação do Capitalismo, investigaram eles as prováveis motivações religiosas que interferiram no processo de desenvolvimento do chamado “Espírito do Capitalismo”, buscando-as, quer no Protestantismo, no caso de Weber, Troeltsch e Tawney, que no Judaísmo, no caso de Sombart. Meditando sobre esses estudos, muitas vezes nos perguntamos se o mesmo raciocínio empregado por esses pesquisadores não poderia ser aplicado também a outras tradições religiosas que não a judaico-cristã, ao se estudar o processo de modernização ocorrido em regiões fora da civilização ocidental. De certa forma, tais indagações representam um prosseguimento das inquirições do próprio Max Weber em seus trabalhos de Sociologia Religiosa, que não se limitaram a perscrutar as relações entre o Capitalismo Ocidental e a tradição cristã, procurando, através de um minucioso estudo das tradições religiosas e filosóficas da China e da Índia, descobrir em que medida as mesmas atuaram como um elemento desencorajador do desenvolvimento do Capitalismo nessas culturas. Segundo Weber, em determinadas fases de sua história, essas civilizações experimentaram condições favoráveis ao desenvolvimento do Capitalismo, como por exemplo, o incremento do grande comércio interno e exterior, ou a importância e o prestígio de que os elementos dedicados à atividade mercantil muitas vezes gozaram. Entretanto, apesar dessas condições favoráveis o desenvolvimento do Capitalismo não ocorreu, obstruído pelo conservadorismo próprio dos letrados confucionistas, no caso chinês, e pelos tabus e restrições próprios da sociedade de castas mais o predomínio do ascetismo monástico, no caso indiano. A história contemporânea da China e da Índia confirma as observações de Max Weber, na medida em que só agora, após um século de dominação semicolonial, a China começa a se modernizar por vias totalmente diferentes das do Sistema Capitalista e, no caso da Índia, as tradições hindus continuam a representar um poderoso entrave aos esforços pela modernização. O processo de modernização dos países do Sudeste Asiático, de civilização influenciada pelas tradições indianas e chinesas, também se revela extremamente lento e penoso.

Existe, porém, na Ásia Oriental uma única e importante exceção, um país que, em fins do século XIX, conseguiu, em poucas décadas, neutralizar a pressão imperialista das potências ocidentais e modernizar suas estruturas sócio-econômicas conforme a via capitalista, revelando-se em breve um rival competidor das nações que lhe serviram de modelo: o Japão, país cuja civilização tradicional também era herdeira da cultura chinesa, com importantes contribuições da cultura indiana absorvidas através do Budismo. O estudo do processo de modernização do Japão e de suas causas tem se revelado um dos mais fascinantes temas da historiografia contemporânea.

A primeira atitude tomada pelos estudiosos do problema, tanto os do Ocidente como os do próprio Japão, foi de explicar o processo de modernização como produto exclusivo do impacto da cultura ocidental sobre a civilização nipônica e pelo ardor com que os japoneses souberam se desembaraçar de suas velhas tradições para ingressar na via da ocidentalização e da modernização como nação industrializada. Para esses primeiros pesquisadores, bem como para os próprios líderes japoneses, a tradição nipônica não era senão um entrave à modernização, de que o Japão soube habilmente se desvencilhar. O historiador mais representativo dessa primeira corrente é Edward H. Norman (Japan's Emergence as a Modern State, New York, 1940), cujo pensamento exerceu uma enorme influência sobre os pesquisadores do mundo ocidental e do próprio Japão. Entretanto, não podemos explicar a modernização japonesa unicamente pelo impacto da civilização ocidental, pois outras áreas da Ásia Oriental sofreram igualmente esse impacto, sem que se verificasse nenhum processo de modernização comparável ao nipônico. É necessário, portanto, verificar quais foram as condições existentes na civilização tradicional do Japão que estimularam o japonês a reagir prontamente frente ao desafio da pressão ocidental, através de um engajamento consciente na tarefa de modernizar o país segundo o modelo capitalista ocidental. Assim, os pesquisadores mais recentes, tanto no Japão como no Ocidente, voltam-se para o estudo das instituições, da conjuntura sócio-econômica, da cultura e da mentalidade do Japão pré-industrial, buscando as condições que estimularam a adesão do japonês ao Capitalismo Ocidental. É nessa linha que trabalham os novos japonologistas como Edwin Reischawer, John Witney, William Hauser e Robert N. Bellah. Especialistas japoneses como Ryoen Minamoto, Hajime Nakamura, Yushô Miyasaka e Ryuichi Mori também têm se preocupado, em uma linha de raciocínio inspirada em Max Weber, em verificar em que medida as escolas tradicionais de pensamento como o Budismo e o Confucionismo poderiam ter contribuído para criar no povo japonês uma mentalidade favorável ao engajamento no processo de modernização segundo a via capitalista.

É nossa intenção desenvolver um estudo sobre a tradição budista japonesa, concentrando-nos principalmente nos autores da última fase da sociedade feudal nipônica (Período Tokugawa – 1600-1868), a fim de verificar ate que ponto a mesma favoreceu a criação de uma mentalidade racionalizante e valorizadora da atividade econômica, favorável à assimilação do Sistema Capitalista. Estaremos desta forma aprofundando a linha de pesquisa inaugurada pelo japonologista norte-americano Robert N. Bellah, que em seu trabalho já clássico Tokugawa Religion – The Values of Pre-Industrial Japan (Glencoe, 1957) demonstrou a existência de elementos racionalizantes e modernizantes no pensamento religioso do Período Tokugawa. Bellah concentrou sua atenção no Shingaku (literalmente: “Estudo do Coração”) escola ético-religiosa sincrética que divulgava entre os comerciantes de Osaka e outras cidades uma doutrina baseada em princípios budistas e confucionistas, elaborada por Ishida Baigan (1685-1744). Nossas investigações procurarão demonstrar que tais elementos modernizantes e racionalizantes não são monopólio das novas escolas surgidas durante o Período Tokugawa, mas sim que eles já existem, pelo menos no que se refere ao Budismo, em escolas tradicionais mais antigas. Para demonstrar essa tese resolvemos focalizar a obra de Suzuki Shôsan (1579-1655), pensador filiado ao Budismo Zen, importante escola budista do Extremo Oriente, cujas origens remontam à China do século VI d.C., tendo sido introduzida no Japão no século XIII.

Suzuki Shôsan foi, até época muito recente, um pensador quase totalmente desconhecido. Deve-se isso ao fato de a maior parte dos especialistas japoneses concentrar seus estudos na vida e na obra dos grandes patriarcas budistas fundadores das escolas ou denominações religiosas que financiam as universidades e centros de pesquisas a que estão ligados, deixando em segundo plano os autores considerados heréticos ou dissidentes, bem como aqueles que não foram suficientemente felizes em criar movimentos que se enraizassem entre o povo. Foi esse o caso de Suzuki Shôsan, considerado tradicionalmente pelas comunidades Zen como um herético de pouca importância, que não logrou influenciar senão um círculo muito reduzido de discípulos. Entretanto, recentemente alguns estudiosos o redescobriram como um pensador bastante original, precursor no Japão da crítica racional aos antigos mestres Zen cuja autoridade era considerada absoluta nos círculos tradicionais, proponente de idéias modernizantes no campo da ética econômica e idealizador de uma síntese entre o Budismo Contemplativo (Zen) e o Devocional (Amidismo), posição eclética totalmente divergente do estrito sectarismo que caracteriza as escolas budistas nipônicas desde o século XIII.

Um passo decisivo para a revalorização da obra de Suzuki Shôsan foi a edição, em 1962, de suas obras completas e de alguns textos biográficos, por Tesshin Suzuki, superior do Templo Onshinji, fundado por Shôsan em Mikawa (atual Prefeitura de Aichi), sua terra natal1.

Trata-se infelizmente de uma edição bastante deficiente do ponto de vista gráfico, com inúmeros erros tipográficos, o que, no caso da escrita japonesa, que emprega caracteres ideográficos chineses, muitas vezes falseia gravemente o sento do texto. Posteriormente o Prof. Dr. Yushô Miyasaka, da Universidade Kôyasan, publicou uma edição muito mais cuidadosa de uma seleção de textos de Shôsan, da qual consta o Banmin Tokuyô, o texto fundamental desse pensador sobre ética econômica e principal objeto de nossa pesquisa2.

O Prof. Dr. Hajime Nakamura, da Universidade de Tóquio, em seus estudos sobre os aspectos racionalizantes e modernizantes da religião nipônica, foi o primeiro a realçar a figura de Shôsan como precursor da “Modernidade” no pensamento budista nipônico3. Foi ele o primeiro especialista japonês em Budismo a utilizar o método weberiano de análise sociológica da religião no estudo do pensamento religioso do Japão pré-industrial, partindo da hipótese de que no mesmo se encontrariam alguns aspectos modernizantes e racionalizantes comparáveis aos encontrados por Weber e outros no Protestantismo. Realçou ele a figura de Shôsan como um das mais representativas das tendências modernizantes do pensamento budista no Período Tokugawa. Em Kinsei Nippon no Hihanteki Seishin apresenta ele o mais completo estudo sobre Shôsan até hoje feito, apresentando a biografia do mesmo, um resumo de suas obras e uma análise de suas idéias, enfatizando seu espírito crítico em relação à autoridade e sua valorização da atividade econômica como meio para se atingir os ideais de perfeição religiosa. O Prof. Nakamura também realça o fato de que, dentre todos os autores budistas do Período Tokugawa que escreveram sobre o Cristianismo, Shôsan foi o único a elaborar uma crítica racional baseada no conhecimento da Doutrina Cristã, ao invés de partir para o anátema puro e simples. Os estudos do Prof. Nakamura chamaram a atenção de outros pesquisadores com Yushô Miyasaka, Chikazu Keishi, Noboru Murata, Kotatsu Fujita e outros que também discutiram a modernidade da ética econômica proposta por Shôsan4. Outros autores têm tratado de outros aspectos do pensamento do mesmo. O Prof. Jikai Fujiyoshi, da Universidade de Hanazono, vê em Shôsan sobretudo o elaborador de uma fusão do Zen, aristocrático e contemplativo, com o Amidismo, popular e devocional. Essa fusão, que praticamente é a tendência dominante no Budismo Chinês, não apresenta no Japão Pré-Moderno nenhum outro exemplo além da obra de Shôsan5. Já o Prof. Yûsen Kashiwabara, da Universidade Otani, tem focalizado Shôsan principalmente como um pregador preocupado em atingir as massas com sua mensagem6. Os Mestres Zen Akizuki e Omori, por sua vez, têm se preocupado em estudar os métodos peculiares de treinamento e meditação Zen propostos por Shôsan7.

O objetivo do presente estudo é apresentar uma tradução comentada do Banmin Tokuyô, o principal trabalho de Shôsan sobre a ética econômica, acompanhada de comentários que facilitem sua compreensão. Nossa intenção é apresentar um texto contendo idéias modernizantes sobre ética econômica que possa demonstrar a existência de relações entre o pensamento budista e o processo de modernização do Japão. Acreditamos que o texto poderá interessar a todos os que se preocupam com a Sociologia Religiosa e o problema das relações entre o pensamento religioso e a economia, em particular. Acreditamos ainda que o texto de Shôsan possa proporcionar fecundas reflexões aos teólogos de qualquer filiação religiosa preocupados com a dicotomia entre a vida ativa e a contemplativa, para a qual Shôsan apresenta uma solução extremamente original dentro da história do pensamento religioso oriental.

Nossa tradução do Banmin Tokuyô foi feita com na edição preparada pelo Prof. Yushô Miyasaka, cotejada com a edição de Tesshin Suzuki. Agradecemos a colaboração de todos aqueles que, durante nossa viagem de estudos ao Japão nos anos de 1972 e 1973, nos honraram com suas críticas e sugestões, principalmente o Prof. Yushô Miyasaka, sem o qual essa viagem e esta pesquisa teriam sido impossíveis, aos Profs. Jikai Fujiyoshi e Seizan Yanagida, da Universidade de Hanazono, ao Prof. Yûsen Kashiwabara, da Universidade Otani e ao Prof. Ryukichi Mori, da Universidade Ryukoku. Agradecemos também o apoio moral e o encorajamento amigo do Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, da Profª. Dr ª. Maria Regina da Cunha Rodrigues Simões de Paula e de todos os amigos e companheiros dos Departamentos de História e Lingüística e Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Para a transcrição fonética dos vocábulos nipônicos adotamos o Sistema Hepburn de transliteração, que embora baseado na grafia inglesa, é mais compreensível ao leitor brasileiro do que o sistema adotado oficialmente pelo Ministério da Educação do Japão. Ao transcrever nomes próprios, usamos o sistema tradicional nipônico, sobrenome antes do prenome para os personagens históricos, e o sistema ocidental, prenome antes do sobrenome, ao mencionar autores modernos.


1. SUZUKI (Tesshin) – Suzuki Shôsan Dôjin Zenshû (Obras Completas do Mestre Suzuki Shôsan), Tokyo, Sankibô, 1962.
2. MIYASAKA (Yushô) – Kanahôgoshû (Coletânea de Textos Religiosos em Língua Popular), Tokyo, Iwanami, 1967.
3. NAKAMURA (Hajime) – Nippon Shûkyô no Kindaisei (O Caráter Moderno da Religião Japonesa), Tokyo, Shunjûsha, 1964.
IDEM Kinsei Nippon no Hihanteki Seishin (O Espírito Crítico no Japão Pré-Moderno), Tokyo, Shunjûcha, 1965.
4. Vide enumeração detalhada das obras desses autores na Bibliografia.
5. FUJIYOSHI (Jikai) – Jôdokyô Shisô Kenkyû (Estudos sobre o Pensamento Amidista), Kyoto, Kichudô, 1969.
6. KASHIWABARA (Yûsen) – Kinsei Shômin Bukkyô no Kenkyû (Estudos sobre o Budismo Popular Pré-Moderno), Kyoto, Hôzôkan, 1971.
7. AKIZUKI (Ryûmin) – Zenmon no Iryû (Correntes Heterodoxas do Zen) Tokyo, Chikuma, 1967;
   OMORI (Sôgen) – Sanzen Nyûmon (Introdução à Prática do Zen), Tokyo, Shunjûsha, 1972.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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86802-265 — Apucarana — Paraná
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(0xx43) 3423-0315
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