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Takashi
Hirose O Budismo Shin para os dias de hoje
Esta é a primeira oportunidade que tive para fazer uma palestra em Tokyo e, para dizer a verdade, estive pensando sobre o que diria, desde que deixei Kyoto. Um ponto que tenho sempre em mente, é o propósito de proferir uma palestra de fácil entendimento, refreando o uso de termos técnicos budistas, tanto quanto possível. Entretanto, essa preocupação não é novidade, pois sempre tive esse cuidado nas palestras que proferi até hoje, e sinto que gostaria de dar início a minha palestra com alguns comentários sobre isso. Antes de mais nada, embora seja verdade que o Budismo tem muitos termos técnicos difíceis, não encontramos na nossa linguagem diária, e que também qualquer esforço seria pouco para transformá-los numa terminologia mais acessível, é mais verdade ainda, que não obstante o quão bem feita possa ser a tradução dos termos budistas para o vocabulário atual, se eles falharem em transmitir um significado vivo para nós, na verdade nada terá sido alcançado. Uma palavra, ou seja, qualquer palavra, só é funcional quando tem vida. Desse modo, mesmo a mais antiga das palavras, se estiver viva, pode ser chamada de “moderna”. Se ela produz uma resposta em nós no momento que a ouvimos, ela é qualificada como uma palavra atual. O vocabulário técnico deve ser considerado desta mesma forma. Um termo técnico que não provoca resposta em nós, sob todos os aspectos é uma palavra morta, assim sendo, não há caminho para vivificá-lo, apesar do quanto tentemos modernizar o seu uso. Alguma idéia da dificuldade envolvida na substituição de um vocabulário técnico pode ser vista quando examinamos o clássico do Budismo Shin, o Tannisho – Tratado de Lamentação das Heresias. Como vocês devem saber, este livro era pouco conhecido antes da virada do século. Desde então, ele tem sido tão amplamente lido quanto um “best-seller”, embora não o seja. Entretanto, se vocês pensarem sobre isso, verão que esse livro foi escrito há cerca de sete séculos atrás. Apenas a leitura da parte introdutória já é suficiente para nos convencer de que a terminologia desse livro é bastante arcaica, muito diferente da que é usada atualmente. Fazendo uma leitura superficial do texto, teríamos que concluir, sem dúvidas, que a obra inteira nada mais é que uma longa cadeia de palavras técnicas ininteligíveis. Ainda assim, sabemos que de fato, o “Tannisho” é uma das obras mais lidas no Japão moderno. Provavelmente, a razão para isso, encontra-se na natureza do texto em si. Apesar de outros comentários críticos a este respeito, o “Tannisho” é uma coletânea de expressões vivas, que interceptam a nossa abordagem intelectual habitual e, assim sendo, tocam diretamente o nosso ser. Visto desta forma, o Tannisho é uma obra única. Penso que o que está por trás do atual desejo de tornar a religião algo mais compreensível é a tendência que temos de nos preocuparmos com o problema da inteligibilidade e da racionalidade e juntamos a isto os nossos preconceitos de ter religião como algo basicamente irracional. Desde o final do século XIX, sob a forte influência do pensamento ocidental, muitos pensadores japoneses têm procurado de certa forma, reconciliar as diferenças entre fé e razão. Apesar desta tentativa sem dúvida ter o seu valor, o resultado não parece ser, a religião ter se tornado algo mais compreensível para o homem moderno. Provavelmente, este é o motivo pelo qual as pessoas continuam buscando uma religião mais moderna, ou seja, ainda mais “compreensível”. Ainda que estas solicitações continuem sendo feitas, nós percebemos um constante declínio no verdadeiro entendimento religioso. Seria esta falta de compreensão devida simplesmente ao fato de que a religião “não tenha se modernizado suficientemente”? Sinto que pareço um pouco antiquado quando digo isto e embora não possa afirmar, acho que talvez o presente declínio no entendimento e no interesse religioso, sejam causados pelas nossas tentativas de modernizar a religião. Aqui, temos que parar um momento e considerar exatamente o que é que nós estamos realmente procurando, quando desejamos uma abordagem mais facilmente compreensível da religião. O que suspeito que esteja por trás desta reivindicação é a nossa tendência rígida de procurar aquilo que nos agrada. Dado que tentamos entender religião desta maneira, nosso real “entendimento” bloqueia qualquer compreensão do verdadeiro sentido da vida religiosa. Para a religião se tornar algo que afeta o âmago mesmo do nosso ser, devemos nos livrar do nosso egocentrismo e egoísmo, a partir de nosso auto-esforço. Isso é vital para qualquer verdadeira busca religiosa. A solicitação era para que eu diminuísse o uso de termos técnicos. Antes de mais nada, eu quero exatamente dizer que se vocês estiverem aptos a absorver o significado das minhas palavras, saibam que não se trata de uma questão de mero entendimento racional. A absorção do que eu digo mostra que eu só posso comunicar-lhes aquilo que tem um significado vivo para mim. Sem isso, as pessoas nada transmitem, não importando o quão simplificadamente elas possam estar expressando – a verdadeira comunicação ocorre quando há um nível mais profundo do que o de meras palavras e implica em algo mais importante que o “entendimento”. Eu queria esclarecer estes pontos, antes de começar minha palestra.
Então, quais são as características de uma vida religiosa, uma vida de fé? Internamente há o Ensinamento, ou seja, a Doutrina, externamente há a expressão religiosa. Isto é, nós ouvimos e acreditamos nos Ensinamentos religiosos e manifestamos esta crença externamente através da reverência. Estas são as duas mais importantes características da vida religiosa. Vasubandhu (a.c.320-400) da Índia, um dos Patriarcas da tradição da Terra Pura, evidenciou a reverência como o primeiro passo para a entrada na pura vida religiosa. Sem a reverência não há verdadeira religião. Nós dissemos que a verdadeira vida religiosa é aquela dedicada a ouvir o Ensinamento e praticar a reverência. Estaremos nós então, considerando cada ocasião na qual reverenciamos ou ouvimos o Ensinamento como sendo uma genuína manifestação de pura vida religiosa? É mais ou menos como diz o velho ditado: “Mesmo uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de reverência se alguém tem fé”. Mesmo algo como uma cabeça de sardinha pode tornar-se objeto de fé se alguém posiciona sua mente neste sentido e eu penso que isto poderia até ser chamado de “reverência”. Entretanto, se olharmos mais cuidadosamente para o interior da mente que reverencia desta forma geralmente encontraremos mais egoísmo do que qualquer outra coisa. Esse egoísmo pode assumir uma pretensa religiosidade, mas realmente ele está apenas tentando satisfazer os desejos do ego. Se nossa vida religiosa estiver fundamentada nesta espécie de atitude egoísta, estaremos certamente inclinados a escolher qualquer fé, desde que haja mais vantagens para nós mesmos. Um exemplo marcante disso, é o comerciante no qual a fé religiosa é meramente uma extensão de seu desejo de lucro. Isso não é Religião Verdadeira, qualquer que seja o sentido da palavra. Reverência no seu sentido original tem a conotação de auto-transcendência, literalmente abaixar a cabeça. Tal é a forma de reverência que o nosso todo deve assumir. Anseios tais como o desejo de saúde ou de bem estar podem compor uma parte de nossa vida, mas não podem nunca formar sua totalidade. Sendo assim, por um lado, mesmo que reverenciemos para obter satisfação dos nossos desejos pessoais, por outro lado, eu digo que isso não é a verdadeira reverência. A reverência vista especificamente desta forma, não é algo fácil. Alguém poderia quase dizer que ela é impossível dentro dos limites da capacidade humana. O monge chinês T'an-luan (476-542), um dos patriarcas da Terra Pura, certa vez escreveu: “A devoção é sempre acompanhada de reverência mas a reverência nem sempre é acompanhada de devoção”. A devoção, o verdadeiro “inclinar a cabeça diante de algo”, leva naturalmente a uma vida de sincera reverência. Mas, não obstante quão zelosamente possamos reverenciar, se nós continuamos abrigando desejos egoístas em nossos corações, então, nossa reverência não constituirá a sincera reverência, é uma vida de negação do ego e de todas as suas intenções. Essa pura vida religiosa, essa vida que não permite o egoísmo, brota quando todo o nosso ser é transformado num veículo para receber o Ensinamento. Toda a nossa vida deve tornar-se um ato de ouvir o Ensinamento, todo o evento servindo de condição para o aprendizado de vida, independendo de quais sejam as circunstâncias nas quais nos encontremos. Genericamente falando, não podemos nunca fazer uma mesma coisa duas vezes na vida. Assim sendo, sempre acho um pouco engraçado quando pessoas mais velhas dizem às mais jovens: “Vocês jovens cometem tolices porque não viveram o bastante para saber melhor. Nós, pessoas mais velhas, temos muita experiência e portanto raras vezes cometemos erros como vocês”. Isso parece bastante verdadeiro a princípio, mas eu não penso que seja válido. Enfatizando um pouco o que eu digo, sinto que uma criança de três anos é exatamente igual a um adulto de oitenta, pois cada experiência vivida por ambos é única e sem repetição. Independentemente de quanta experiência possamos ter tido, ninguém prediz o que está guardado ou reservado para nós, no próximo instante, no futuro. A cada momento, cada um de nós está adentrando aquele intervalo de tempo que é sempre novo e nunca foi antes percorrido por nenhum outro ser humano. Não podemos predizer o que o amanhã pode trazer. Mesmo que possamos falar sobre nossos planos de vida, isto não significa que eles aconteçam no futuro. Assim, por mais que tentemos usar a religião para atingir fins egoístas, mais angústias teremos que suportar diante dos eventos inesperados que surgem a cada momento. A religião usada desta forma, jamais poderá nos ajudar com sucesso, diante dos imprevistos da realidade da vida. Um Sutra afirma: “É neste exato momento, neste exato lugar, que o Buda prega o Dharma”. A verdadeira religião deve ser aquela que preenche a totalidade de nossa vida. A religião deve ser uma fonte inesgotável para esta vida, ou seja, o ponto do qual, nós constante e renovadamente, recebemos o Ensinamento. Nossas vidas serão assim, transformadas, transformadas numa vida de reverência, que é a verdadeira vida religiosa, na qual nós inclinamos nossas cabeças e ouvimos o Ensinamento. Vista desta perspectiva, a modernização da religião, não é meramente uma questão de reformá-la para sua adequação às necessidades dos dias atuais. Nós que temos tais necessidades, devemos em verdade, ser aqueles que recebem os Ensinamentos e se empenham em buscar neles o significado das nossas vidas. Um pensador religioso, o Manshi Kiyozawa (1863-1903) disse certa vez:
A verdadeira religião não tem resposta para nossas buscas egoístas. Ao invés disto, ela nos mostra o caminho além do sofrimento e da aflição causados por aquelas mesmas buscas. Enquanto isto não for entendido, a religião não pode dar a resposta aos nossos mais íntimos anseios.
Realmente este é o ponto que eu quis enfatizar quando dei à minha palestra o título “O Caminho do Discípulo”. O caminho do discípulo não se refere a um caminho específico de vida. Ele se refere, mais exatamente, ao fato de que uma vez estando abertos nossos olhos para nossas aspirações mais íntimas, nossa vida inteira é transformada numa vida de “ouvir o Ensinamento”. Esse modo de vida é a mais verdadeira expressão da nossa natureza mais íntima – sem isso, jamais nossas vidas atingirão a realização. Há tantos estilos de vida diferentes, quanto há seres humanos, e apesar disso, estamos todos unidos pela nossa natureza humana. A partir dessa base comum, encontramos nossa unidade neste ato de ouvir o Ensinamento. Os patriarcas da Terra Pura, esclarecem que a religião não é nada em especial, mas algo fundamental, que é compartilhado por toda a humanidade. Essa visão foi depois melhor desenvolvida por Shinran. O Budismo tem três elementos básicos: Ensinamento, Prática e Iluminação. Primeiro toma-se refúgio no Ensinamento, depois pratica-se o que ele transmite e, através disso, obtém-se a iluminação. Tal é o caminho do Budismo. Entretanto, como mostrará um estudo histórico, os budistas nem sempre se sentiram satisfeitos com esse caminho franco e direto. Sempre houve um desejo de entender os Ensinamentos de Buda em termos intelectuais, um desejo que às vezes se sobrepõe à real mensagem do Budismo. O Budismo requer apenas que vivamos e morramos de acordo com o que o Buda ensinou; a abordagem intelectual apenas tem complicado e obscurecido essa verdade simples. Quanto maior o ímpeto para a lógica, mais o Ensinamento perde do seu significado religioso. Quando abordado de uma forma puramente intelectual, o Ensinamento é reduzido a pouco mais que uma especulação filosófica. E o Ensinamento não é especulação, ele existe para nós, aqui neste exato momento. Constantemente recebemos o Ensinamento, independentemente de “entendê-lo” ou não. Aquilo que entendemos intelectualmente é um mero dogma ou crença doutrinária, não é o Ensinamento ativo e vivo no qual podemos basear nossas vidas. Isto não é religião no sentido que a palavra japonesa shukyo (A palavra japonesa Shu significa Essencial e a palavra Kyo é o Ensinamento) – religião – implica. Por trás do desejo de entendimento intelectual sempre se levanta uma espécie de vaidade, um sentimento de que o Ensinamento é algo que alguém pode utilizar para si próprio, e por si próprio. Isto nada mais é que afirmação do ego – envolve a visão de que o Buda nada mais é que um homem e que o Budismo é nada mais que uma coleção de dizeres de uma pessoa chamada Shakyamuni. Essa visão intelectual, esquece o inteiro significado do relacionamento entre Ensinamento e discípulo. O verdadeiro entendimento do Ensinamento necessita da transcendência do ego, esse mesmo ego que busca entendimento racional. Quando o ego é transcendido, vemos que as palavras do Buda, vindas do mundo de Nyorai – o absoluto – não são simplesmente os Ensinamentos de algum “grande homem”. Portanto, a verdade mais profunda dessas palavras está além da compreensão do simples nível de entendimento humano. Seu significado nos parece somente se devotarmos nossa vida inteira a ouvir e aprender o que delas provêm. Assim sendo, o verdadeiro significado do Budismo está disponível apenas àqueles que ouvem, guardando a postura de discípulos. Acho que a principal razão pela qual o Budismo tem conseguido manter sua vitalidade como religião, apesar da contínua tendência à intelectualização, é que muitas pessoas simples – não homens de estudo e conhecimento – têm tomado refúgio no Ensinamento, têm seguido seriamente suas intenções e têm vivido suas vidas à sua luz. São essas pessoas que têm preservado o espírito vivo do Budismo. Para elas, o Budismo tem sido sempre o caminho do Ensinamento, da Prática e da Iluminação. Os patriarcas da Terra Pura foram homens que, movidos pela sinceridade dessas pessoas simples, dedicaram suas vidas ao caminho do Budismo. Eles não tiveram a intenção específica de iniciar uma tradição – a da Terra Pura – em contestação a outras Escolas Budistas. Eles, simplesmente detectaram o engano daqueles que se aproximam do Budismo pelo lado intelectual, reconhecendo que o Ensinamento não é algo para ser tomado racionalmente, mas exatamente algo para ser ouvido com toda a integridade do ser. Assim sendo, os patriarcas da Terra Pura revelaram a direção na qual repousa o verdadeiro espírito do Budismo. Na verdade eles nos mostram que todos os homens sem exceção, podem receber o Ensinamento, desde que se voltem para as origens da vida. Isso não é difícil de entender. Todos têm pai e mãe, e todos são nutridos pelo mundo ao seu redor – essas verdades fundamentais de existência mantêm cada ser com vida. Ninguém brota do solo. É neste nível de entendimento, que se encontra o mínimo denominador comum da vida, em que todos os seres humanos ouvem o Ensinamento em completa igualdade. Assim sendo,o Ensinamento da Terra Pura é um caminho universal, no qual os patriarcas da Terra Pura enfatizaram que a vida religiosa é a mais verdadeira vida para o espírito humano. Quando enxergamos além de todas as diferenças superficiais – inteligência, habilidade, personalidade e características morais – voltamos à nossa natureza original, sem sofisticação, e nos encontramos no caminho do discípulo, ouvindo o Ensinamento na simplicidade do coração. Tal é a promessa da vida, a promessa revelada no Ensinamento de Shinran.
O termo “Estudos Budistas” originalmente implicava no discipulado, um processo de aprendizado dos Ensinamentos do Buda. Assim sendo, os comentários escritos na Índia e na China, sempre começam com uma pequena frase expressando devoção e reverência, algo como “Eu, reverenciando e tomando refúgio nos Ensinamentos do Buda, expresso agora meu entendimento acerca disso”. Quando num comentário falta essa frase devocional podemos concluir que se trata apenas de um tratado de orientação acadêmica e não de um trabalho que diz respeito ao verdadeiro significado do Budismo. Assim, a presença ou ausência desta frase nos diz se o comentário foi escrito por um verdadeiro discípulo do Buda ou simplesmente por um erudito. Às vezes é perguntado, em parte como brincadeira, “Quem foi mais inteligente, o Buda ou seus maiores discípulos?”. Claro que esta é uma questão difícil de responder, pois até no que diz respeito à escolaridade, o Buda não deve ter tido o nível de Nagarjuna ou de Vasubandhu. Mesmo hoje, devem existir pessoas que são mais inteligentes que o Buda. Sem dúvida, por grandes que tenham sido os Ensinamentos de Vasubandhu e Nagarjuna, eles próprios não foram o Buda. Foram simplesmente discípulos do Buda. Esta distinção entre mestre e discípulo é o que é importante, não importa o conhecimento ou habilidade. Este é um ponto vital no estudo e discussão do Budismo. Tan-luan, por exemplo, respeitou profundamente Nagarjuna e Vasubandhu, não por causa de seus pensamentos, mas por causa deles terem ouvido humildemente o Ensinamento de Buda, dedicando suas vidas inteiras ao mesmo. O verdadeiro estudo do Budismo não é possível sem este espírito de devoção. Infelizmente porém, raras vezes as pessoas são hábeis o suficiente para assumirem um espírito de verdadeira humildade. Elas desejam o entendimento intelectual; elas nunca absorvem o Ensinamento, porque realmente nunca o ouviram. O Ensinamento permanece como algo separado das suas vidas, apesar de que é “neste exato momento, neste exato lugar, que o Buda prega o Dharma”. Se as pessoas conscientemente se propõem a se tornarem mais humildes, acontece que apenas se tornam mais arrogantes. Algo assim, deve estar por trás da transição dos comentários budistas de trabalhos de devoção para tratados acadêmicos. Com esta transição, a ênfase no budismo mudou a forma: de ensinamento, prática e iluminação, para ensinamento, entendimento, prática e iluminação. Tal modo de olhar as coisas pressupõe que o entendimento intelectual seja indispensável à prática e obtenção final do caminho. Todos os seres humanos são iguais em sua habilidade para ouvir o Ensinamento. Entretanto, nem todos são iguais em sua habilidade para analisá-lo e entendê-lo. Mais ainda, mesmo se alguém fosse proclamado como detentor do perfeito entendimento do pensamento budista, quem a não ser, Shakyamuni poderia confirma-lo? Como Shakyamuni faleceu há muito tempo atrás, não há como julgar certo este ganho de percepção através da racionalidade. Há um outro ponto a ser considerado aqui. Por que, apesar do entendimento intensificado e análise do pensamento budista, não tem havido intensificação correspondente na nossa habilidade para perceber a verdade do Budismo nas nossas vidas? A verdade, sendo universal, poderia ser igualmente percebida por todos os seres humanos, no entanto, quanto mais tentamos apreendê-la intelectualmente, mais ela parece remota e fora de alcance. Quanto mais queremos entender esta verdade, mais longe da libertação parecemos estar. Isto é desnecessário dizer, é fatal para o verdadeiro espírito do Budismo, para o Budismo como religião mas não como uma filosofia. O âmago deste problema, como afirmaram os patriarcas da Terra Pura, está na ausência de devoção em nosso espírito e de atitude receptiva para com o Ensinamento. Se quisermos perceber o verdadeiro significado do Budismo nas nossas vidas, devemos retornar a esse espírito de disciplina, o espírito simples que toma refúgio no Ensinamento, o qual enfatiza tanto a vida como a morte. Tal é o Ensinamento da Terra Pura, o Caminho do discípulo.
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