Takashi Hirose
O Caminho do Discípulo


Shirnan, o Néscio Tonsurado

Foi através de um telefonema, que fui informado do tema da palestra. Um dos meus amigos recebeu a chamada e me disse: “Alguém quer que você faça uma palestra com o tema: gutoku Shinran – “Shinran, o Néscio Tonsurado”. Quando ouvi isto, imediatamente resolvi aceitar.

O tema fazia um apelo direto para mim. Tinha conteúdo. Não era um simples tema de palestra. Impulsiva e inexplicavelmente desafiante, “gotoku Shinran” era um assunto muito atual e diferente. Apesar de parecer simples, ele tocava em pontos da mais profunda e fundamental importância religiosa.

Gutoku Shinran” é como Shinran se auto-denominou. É uma auto-designação pela qual o próprio Shinran foi responsável. Penso que este é um ponto importante. Geralmente recebemos nosso nome logo após o nascimento e o nome que nos é dado permanece conosco por toda a nossa vida. Enfim, não temos nenhuma escolha quanto a esse assunto. De alguma maneira, isto me soa um pouco irônico: apesar da vida ser algo que temos de viver por nós mesmos, o nome que carregamos é escolhido por alguma outra pessoa.

Pensando bem, um nome é a cristalização da vontade de alguém em relação a nós. Os pais geralmente dão às suas crianças nomes de pessoas que eles respeitam, pessoas com as quais eles gostariam que suas crianças parecessem. No Oriente, os caracteres chineses usados para os nomes, sempre simbolizam qualidades que os pais consideram desejáveis nas suas crianças. Um nome é mais que uma palavra descritiva – ele carrega esperança e expectativa, e sendo assim, todo nome é um bom nome. Entretanto, temos que admitir que muitas vezes não estamos aptos a nos comportarmos de acordo com nossos “bons nomes”. A esperança implícita no nosso nome, a disparidade entre nome e realidade, entre o que poderíamos ter sido e o que somos, não podemos evitar o sentimento que às vezes surge, quando pensamos que nosso nome é mais um peso para nós, do que uma expressão de esperança.

Shinran abandonou os nomes que lhe foram dados para auto-nomear-se “gutoku Shinran”. Penso que este pequeno fato ocorrido há sete séculos, traz um importante significado para nós. Há um caminho de vida, pleno de liberdade e vitalidade, no qual nós olhamos para nosso interior, vemos o que somos e como temos que viver, e manifestamos esta percepção no nome que escolhemos para nós. Acredito que era este o estado de espírito de Shinran quando escolheu para si um novo nome.

Vivendo com um nome que nos foi dado e não com um que escolhemos, podemos algumas vezes sentir frustrações. Tomo como exemplo o meu próprio nome, para o qual o ideograma usado é “o sol brilhando sobre uma árvore”. Algumas vezes é um nome um tanto problemático para mim, pois devo constantemente corrigir as pessoas quando ele é lido ou pronunciado errado. Mas, estou certo de que meu pai tinha um desejo, uma esperança ou sonho, quando me deu este nome. Ele desejava profundamente que eu crescesse feliz e apto a encarar as dificuldades da vida, sem perder as esperanças, como prevê o ideograma do sol brilhando no meu nome. Eu nunca conheci meu pai, ele se foi quando eu tinha um ano de idade. Já vivi cinqüenta anos sem saber nada sobre ele, e isto tem sido uma desvantagem na vida.

Claro, poderia ser dito que sei quais os desejos que meu pai tinha para mim, através do sol que está brilhando no meu nome, mas não tem sido fácil para mim, viver de acordo com esses desejos. Minha vida sempre pareceu melhor simbolizada pelo sol sob, do que sobre uma árvore, sendo o “sol” da minha vida escondido pela perda precoce de meu pai. Assim sendo, sinto que o nome que recebi é um peso, sendo de muitas formas, dissociado da realidade da minha vida.

Quando penso nisso, percebo o significado especial do nome “gutoku Shinran”. Ele renunciou aos nomes que lhe haviam sido dados por seus pais e pelo seu mestre espiritual Honen (1132-1212) e se auto-denominou “gutoku Shinran”. Até então, o seu nome não correspondia à realidade da sua vida. Com esta auto-denominação, Shinran resolveu o conflito entre como ele era chamado e o que ele realmente era.

Isto introduz um problema muito importante do Budismo, o problema do ego. Deixem-me começar com uma estória clássica da tradição budista, uma parábola de um dos sutras mais antigos:

Um viajante solitário perdeu-se na sua jornada. Ele caminhou até quase entardecer. Queria encontrar uma pousada na qual pudesse passar a noite, mas não encontrava nenhuma. Quase sem esperança estava ele, quando viu uma velha construção em ruínas, a qual parecia um antigo santuário. Decidido a passar a noite ali, pegou seus pertences e entrou.

Estava quase dormindo quando viu um demônio correndo para dentro do santuário, carregando um cadáver nas costas. Tremendo, o viajante olhou para ver o que o demônio faria a seguir. O demônio lambendo a boca triunfalmente já estava para comer o cadáver, quando outro demônio muito rápido entrou, aparentemente no encalço do primeiro demônio e chamando a atenção, explodiu: “Esse corpo que você tem ai me pertence! Encontrei-o hoje e guardei-o no meu esconderijo, para comê-lo depois, mas você o pegou e o trouxe para cá. Achei-o primeiro, logo me pertence!”.

Mas o primeiro demônio se recusou a devolver o corpo dizendo: “Prove o que diz! Fui eu que o encontrei, portanto, me pertence!”.

Esse diálogo prosseguiu por algum tempo, até que os demônios sentindo algo, pararam rapidamente seu debate.

“Um homem vivo!”. Disse um dos demônios. “Há cheiro de homem vivo aqui. Ele deve estar escondido em algum lugar neste salão”.

Logo eles encontraram o viajante e puxaram-no para fora do esconderijo.

“Você deve ter ouvido o que está acontecendo”. Disseram os demônios. “Qual de nós você pensa que está certo? Diga-nos!”.

Agora o viajante estava em uma situação difícil. Realmente não importava qual demônio ele escolhesse. Se ele dissesse que um estava certo, o outro o devoraria na sua raiva. Nem tampouco o ajudaria manter-se em silêncio, pois ele seria atacado por ambos.

Sem esperança, resolveu responder imediatamente, sabendo que qualquer coisa que dissesse seria desvantajoso.

“O primeiro”. Disse ele.

O segundo demônio aumentou sua fúria e disse. “O que você está dizendo! Como ousa falar isto? E assim falando, ele pegou o braço direito do viajante e torceu até arrancá-lo do corpo. O primeiro demônio, satisfeito por haver sido escolhido, disse: “Que coisa horrível você fez!” E, assim falando, ele arrancou o braço direito do cadáver no chão e o colocou no lugar onde tinha estado o braço do viajante.

Vendo isto, o segundo demônio tornou-se mais furioso ainda e arrancou fora rapidamente, o braço esquerdo do viajante. O primeiro demônio então, arrancou o braço esquerdo do cadáver e colocou-o no viajante. Os dois demônios fizeram o mesmo com as pernas, cabeça e tronco, até que o corpo do viajante foi completamente substituído.

A luz do dia chegou e os demônios sumiram.

Quando o viajante recobrou os sentidos, teve uma sensação de alívio vendo que ainda estava vivo. Mas, tocando todo seu corpo assustado, perguntava a si mesmo: “Será que sou eu mesmo que estou aqui? Ou isto é o eu do cadáver com o qual fui reposto?” Ele não pode chegar a nenhuma resposta para esta questão. Desesperado para resolver este problema, diz-se que visitou um dos discípulos do Buda.”

Este final da estória, é uma espécie de conto imaginário, mas de grande significado, com profundas implicações para o significado do ego. Se você pensar sobre isto, só há uma pessoa na vida que é verdadeiramente vital encontrar. Esta pessoa é o nosso Verdadeiro Eu.

O eu que encontramos é o eu das nossas ilusões, ou seja, o eu do desespero, formou-se quando nossos sonhos não se tornaram realidade. Neste caso então, o que significa estar vivo? Só aprendemos isto quando encontramos nosso Verdadeiro Eu, a mais importante pessoa da nossa vida. Nosso Verdadeiro Eu está sempre aqui conosco, vinte e quatro horas por dia, desde o nosso nascimento. E só quando encontramos este Eu é que encontramos a verdadeira paz.

O Manshi Kiyozawa refere-se à questão do eu, como a mais fundamental questão da vida. Até que esta questão seja respondida, todas as outras por mais vitais que pareçam, são apenas de importância secundária. Kiyozawa afirmou que todos os aspectos da nossa vida, teriam seus fundamentos nesta mais básica de todas as questões. Se ela for ignorada, então, tudo o que fizermos é algo sem real substância, como castelos construídos no ar, alicerçados em ilusões.

O Budismo é um Ensinamento que existe para uma proposta única: esclarecer a questão do eu. Pode-se dizer que todos os Ensinamentos de Buda giram em torno deste ponto central.

A questão fundamental da vida religiosa de Shinran, contribuiu para um Ensinamento que dá a resposta a este problema também fundamental a todos. A sua resolução está refletida na escolha do nome “gutoku Shinran”. Este é mais que um mero pseudônimo. Ele expressa o reconhecimento de Shinran quanto à sua verdadeira natureza e seu desejo de dividir este reconhecimento com os outros. As pessoas responderam a isto, reconhecendo a profundidade e a integridade implícitas no nome que Shinran tinha escolhido para si.

Nesta profunda inter-relação vemos o significado e a força do nome “gutoku Shinran”. Essas qualidades estavam muito na vanguarda, há setecentos anos atrás quando Shinran por este nome, trás hoje para nós, um significado relevante, despertando em nós a busca por uma resposta para a questão do Eu.

O conteúdo histórico do nome “gutoku Shinran”, revela muito do seu significado. Shinran foi um dos principais discípulos de Honen, fundador da Escola da Terra Pura. Ele estudou com Honen em Kyoto por um período de cinco a seis anos, até a perseguição da linhagem da Terra Pura em 1207, quando foi exilado para a remota província de Echigo. Foi durante este período que começou a usar o nome “gutoku Shinran”, indicando que foi lá na costa marítima de Echigo, não em Kyoto, que ele mergulhou pela primeira vez na sua verdadeira natureza.

Ele considerava-se, “nem monge nem leigo”, pois devido ao banimento, foi privado pelo governo de sua dignidade sacerdotal e ao mesmo tempo não tinha meios de viver como um leigo comum. O despertar encontrado dentro do seu verdadeiro eu, surgiu nessas circunstâncias. Não era uma questão limitada, individual. Através desse despertar, Shinran adquiriu um profundo entendimento do mundo real, o mundo do qual ele fazia parte e no qual as pessoas vivem, interagem e se esforçam para sobreviver. Esse entendimento está cristalizado no seu nome.

O entendimento de Shinran acerca deste concreto mundo, do dia-a-dia, está expresso na seguinte passagem do Tannisho, que descreve as pessoas entre as quais ele vivia:

Aqueles que ganham a vida jogando redes no oceano ou pescando nos rios.
Aqueles que sustentam-se matando javalis e pegando pássaros nas terras áridas e nas montanhas .
Aqueles que passam suas vidas ocupados no trabalho ou cultivando a terra.

Os quatro tipos de pessoas aqui citadas são os pescadores, caçadores, mercadores e lavradores, na verdade pessoas oprimidas vivendo suas existências como escravos, trabalhando o solo. Todas estas pessoas eram tidas em baixa estima por aqueles situados em posições mais privilegiadas. Sobre suas pobres e sofridas existências, Shinran entendeu que : “Se tais foram as nossas condições cármicas, nada há que possamos fazer”. Nesta parte do Tannisho, Shinran está discutindo a igualdade de todos os homens. Por que ele escolhe mencionar esse povo da mais baixa camada social, para discutir tal assunto? Penso que a resposta a esta pergunta, está indiretamente embutida na sua escolha pelo nome “gutoku Shinran”.

As pessoas sempre falam acerca da igualdade, debatendo os seus vários aspectos. O que é mais importante põem, é onde essas pessoas se colocam quando discutem este problema – para a igualdade significar alguma coisa, ela deve ser examinada de uma posição definitivamente transparente. Shinran não diz simplesmente que todos os homens são iguais; uma abstração tão vaga assim é sem sentido. A igualdade da qual Shinran falou, foi a palpável e sensível igualdade que ele descobriu na vida que teve entre pescadores, caçadores, mercadores e lavradores. Sinto que este é um ponto importante para se ter em mente.

Além disso, algo mais forte e mais positivo do que uma simples simpatia por essas pessoas oprimidas está por trás da afirmação de Shinran. Vivendo no meio de pessoas da mais baixa camada social, Shinran foi estimulado a reavaliar criticamente os valores do Budismo tradicional, ou seja, o Budismo anterior ao Mestre Honen.

O Budismo tradicional nos diz que nascemos como seres humanos, por termos obedecido aos preceitos budistas em nossas vidas anteriores e assim deveríamos continuar vivendo estes preceitos igualmente nesta vida. Os preceitos budistas: não matar, não roubar, não cometer adultério, não mentir e não usar tóxicos – é claro, são extremamente importantes.

Porém, o que Shinran percebeu na sua vida entre as pessoas comuns de Echigo, foi que se a observação destes preceitos era pré-requisito para a vida budista, então o Budismo poderia tornar-se sem significado na vida dos homens e mulheres comuns. O meio de vida dos pescadores e caçadores era destruir a vida; as atividades dos mercadores, quase inevitavelmente, implicavam numa certa dose de má fé, isto é, implicavam quase num tipo de roubo. O grupo de lavradores estava um pouco melhor. No sistema feudal da época de Shinran, os lavradores eram exatamente a força humana, que trabalhava os campos dos proprietários de terras. Era paralelamente considerado roubo se eles se apoderassem de uma parte da colheita para uso próprio. A situação tornava-se ainda pior, pelo fato de que o proprietário da terra era quase sempre um poderoso templo budista ou um santuário shintoísta: manter consigo algo deles era o equivalente a roubá-los.

Assim, o povo comum da época de Shinran era virtualmente forçado a violar os preceitos para sobreviver. Isso deve ter levado Shinran a reexaminar os valores do Budismo tradicional. Eram essas pessoas menos humanas por terem violado os preceitos budistas para sobreviver? As reflexões profundas de Shinran o levaram à conclusão de que, longe de serem menos humanos que outros, tais pessoas eram realmente o povo que vivia a vida como ela tinha que ser vivida, no mundo real. As classes mais abastadas – os protetores e os seguidores do Budismo tradicional que tinham as pessoas comuns com desprezo – eram as classes que estavam alienadas da realidade, pois viviam afastadas do trabalho opressivo das pessoas pobres. Se as pessoas comuns fossem excluídas da salvação, talvez fosse melhor abandonar o Budismo – pensou ele.

Portanto, Shinran percebeu que tal visão do Budismo era deturpada. O verdadeiro Budismo ensina que todos os seres vivos são possuidores da natureza búdica e promete o despertar a toda a humanidade. Entre os escritos de Shinran, está o seguinte verso:

A palavra de um rico
é como uma pedra caindo dentro d`água.
A palavra de um pobre
é como água penetrando numa pedra.

Quando o rico faz uma afirmação num tribunal, o problema rapidamente chega a uma decisão favorável, exatamente como uma pedra entrando na água. Porém, quando um pobre faz uma afirmação, o tribunal reluta em aceitar o caso e, mesmo que o faça, um resultado favorável raramente é obtido. Para o pobre, isso é como a tentativa de pôr água dentro de uma pedra.

Esse verso indica o reconhecimento de Shinran acerca da situação desesperada das pessoas comuns, causada pela própria estrutura da sociedade feudal, incluindo o Budismo tradicional que era uma importante parte daquela estrutura. Com este reconhecimento, Shinran afirmou a absoluta igualdade de toda humanidade, dentro da Lei do Condicionamento Cármico, expressando esta compreensão na frase mencionada anteriormente: “Se nossas condições cármicas foram tais, nada há a ser feito”.

Essa profunda verdade, além da compreensão humana, é a fonte de origem da igualdade básica do homem. Quando despertamos para essa igualdade e para nossa verdadeira natureza como seres humanos, então as amarras e estruturas do sistema social são transformadas e nós nascemos para uma vida na qual todos os seres humanos e todos os seres vivos existem numa harmonia mutuamente sustentada. Qualquer Ensinamento que não esteja apto a guiar os seres humanos para esta realidade da vida, não pode ser chamado Budismo.

Shinran lidou em termos indubitáveis, com a questão da natureza humana e do legado do verdadeiro Budismo.A compreensão profunda de Shinran sobre esses assuntos é o que se encontra sob seu Ensinamento dos anos posteriores.

Com relação à natureza humana, uma coisa foi totalmente óbvia para Shinran: todos os seres humanos são seres profanos prisioneiros das suas paixões mundanas. O que Shinran quer dizer aqui é que as pessoas são simplesmente pessoas, nada mais, nada menos. Várias passagens do Tannisho esclarecem o que Shinran quer dizer.

A natureza do “homem comum” está determinada pela natureza das condições cármicas. Como mencionamos antes, a expressão “Se nossas condições cármicas foram tais ou quais, não há nada que possa ser feito”, indica que os fatos que surgem na nossa vida estão além do nosso controle ou entendimento.

Em uma outra passagem do Tannisho, ele escreve: “Quando nossas relações cármicas com este mundo expiram, nós morremos, ainda que relutantemente”. Não importa o quanto uma pessoa possa querer viver, ela é impotente para evitar sua morte, quando suas relações cármicas com este mundo expiram. Ainda olhando as relações humanas, ele diz: “Se temos relações cármicas para nos tornarmos companheiros, nos tornamos companheiros, se temos para nos separarmos, nos separamos”.

Coisas como linhagem, status ou personalidade não são consideradas. O que Shinran está dizendo é que o reconhecimento da “ordinariedade” do homem e da sua igualdade, são simplesmente o reconhecimento do fato de que todos os seres humanos devem viver de acordo com suas condições cármicas.

Além disso, Shinran reconheceu que os seres humanos não podem viver, nem tampouco morrer sem o sofrimento que brota do condicionamento cármico. Ele afirma:

Somos todos pessoas comuns. Isto significa que somos preenchidos por desejos que brotam da nossa ignorância. Nossas mentes exibem várias formas de paixões como frustração, raiva, ciúme e rancor. Esses sentimentos maus sempre nos atormentam. Eles nunca cessam, nem por um momento sequer, até morrermos.

Não temos escolha, a não ser viver de acordo com nossas condições cármicas. E ainda por causa delas, não temos escolha, a não ser experimentar o sofrimento contínuo.

Shinran considerou essa situação como o inevitável destino do homem. Tal é a sensível realidade da condição humana e é por isso que ele se auto-denominou “Néscio”. A tolice a qual Shinran se refere, não é falta de inteligência ou estupidez. Com a palavra “Néscio”, Shinran quer dizer que somos ignorantes, completamente ignorantes, ao olharmos para nós mesmos e para a nossa própria humanidade. Nada poderia ser mais tolo do que uma existência cega em relação a nós mesmos. No entanto, é exatamente esse eu néscio, o eu ao qual nada foi acrescentado ou retirado, que o Budismo se propõe a salvar.

Shinran queria simbolizar, com o uso do “Tonsurado” no seu nome, a percepção dessa verdade básica budista. Essa palavra toku significa o status de Shinran, de “nem monge, nem leigo”. Nesta frase “nem monge, nem leigo”, Shinran resumiu sua profunda convicção sobre a natureza do Budismo. “Nem monge” refere-se ao fato de que o caminho não é algo limitado somente a alguns poucos elitizados que vivem um determinado estilo de vida, isto é, os monges budistas. O caminho deve ser acessível a todos. “Nem leigo” significa que o homem não está espiritualmente satisfeito com uma vida sem significado, uma vida na qual ele não faz nada mais do que comer, dormir, morrer.

Há uma aspiração mais profunda no espírito humano, uma aspiração voltada à transcendendência  e é na esperança de satisfazer tal aspiração fundamental, que nós suportamos o sofrimento e as aflições da vida diária. Vemos assim que é essa aspiração profunda, que alimenta os alicerces das nossas vidas. Somos todos iguais neste ponto e nisso Shinran percebeu a dignidade do espírito humano. Então, é esse homem comum, em toda a sua “tolice” – aquele que não é “nem monge nem leigo” – que vive sua vida no caminho búdico. È uma vida vivida na certeza de que, quando tudo estiver feito, a promessa de renascer na Terra Pura terá sido cumprida. Em suma, é isto que está expresso no nome gutoku.

Shinran buscando o caminho para essa vida plena de significado, rememorou as palavras de seu mestre, Honen, aquele a quem, no desamparo, somente restou tomar refúgio no Buda Amida. Shinran expressa isso da seguinte maneira: “Ao encontrar o poder da Aspiração Mais Profunda ninguém passa por ele em vão”. Isso significa que o caminho do Budismo não implica em tornar as pessoas seres extraordinários, imunes ao sofrimento, implica exatamente em torná-las pessoas comuns ouvindo a voz da Mais Profunda Aspiração, mesmo em meio aos sofrimentos. Se pudermos fazer isto, então nossas vidas serão ricas e cheias de significado e nossos dias não passarão em vão. Tal é o verdadeiro significado da busca e da prática do Budismo.

Os dois ideogramas formadores do nome Shinran, foram tirados das versões japonesas dos nomes de Vasubandhu e T`an-luan, dois dos Patriarcas da Terra Pura. Embora tenham vivido em épocas e países diferentes, esses dois Patriarcas devem ter representado para Shinran, uma personalidade integrada, visto que ambos contribuíram para a resolução de um problema crucial para ele, revelando o significado universal da mente devota. Shinran tinha entrado no caminho da Terra Pura através dos Ensinamentos do seu mestre Honen, mas uma importante questão permanecia: como podem os Ensinamentos da Terra Pura serem confirmados e realizados na vida diária? Para Shinran, a resposta surgiu durante seu período de exílio em Echigo. Ele percebeu durante esse tempo de exames e buscas, que a mente devota, harmonizando-se com a totalidade da condição humana, estava revelada nos Ensinamentos de Vasubandhu e T`an-luan. Os Ensinamentos desses dois Patriarcas, em outras palavras, revelavam o verdadeiro estilo de vida de uma pessoa devota. Para Vasubandhu a mente devota consistia em humildade, qualidade esta que para T`an-luan sustentava as pessoas e as protegia, num período caracterizado pela corrupção, tanto da religião como da vida social. Assim, Shinran adotou um ideograma de cada um dos seus nomes para simbolizar sua vida, como sendo a de um homem de devoção.

Portanto, Shinran não é somente um nome, mas é uma profunda expressão da sua realização espiritual. Alguém que despertou neste caminho pode ajudar muito bem no despertar de outras pessoas. Nas palavras do Kiyozawa:

Inicialmente deveríamos estabelecer nossa convicção religiosa – esta é a coisa mais importante na nossa vida. Então, deveríamos compartilhar isto com as outras pessoas, isto é, deveríamos nos tornar pessoas aptas a apreciar a verdade do dito: Tenha fé e transmita-a às outras pessoas.

Uma pessoa com a mente devota considera sua missão de “Ter fé e levá-la adiante para as outras pessoas”. Assim, a auto-denominação de Shinran, deveria fazer com que nos perguntássemos: “Não sou eu também, um Néscio Tonsurado Shinran?”.

Se realmente, considerarmos esta questão e reconhecermos que somos também um “gutoku Shinran”, então, o caminho para a vida de companheirismo e significado, abre-se diante de nós; uma vida de igualdade com todos os demais “gutoku Shinran” , na qual toda distinção de estilos de vida e condições cármicas são transcendidos. Assim, o nome “gutoku Shinran” mostra-nos o caminho para a verdadeira dignidade humana, e nos ensina a não  nos vermos como indivíduos isolados. Tal caminho nos remete de volta ao ponto da nossa origem, a fonte na qual obtivemos nossa condição humana. “gutoku Shinran” mostra-nos a realização de Shinran, do seu eu verdadeiro e próprio – permitindo-nos prestar atenção ao significado do seu nome e tornarmo-nos “gutoku Hirose” ou “gutoku fulano ou sicrano”.

Agindo assim, descobrimos o verdadeiro significado do Ensinamento de Shinran dentro da nossa vida diária.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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86802-265 — Apucarana — Paraná
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Monge Responsável:
Rev. Wagner Bronzeri (Sh. Haku-Shin)
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