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Takashi
Hirose O sofrimento do homem moderno
O que aconteceria se um dia você abordasse alguém na rua e perguntasse, “Desculpe-me, mas você é humano?”. A pessoa provavelmente ficaria muito irritada, ou melhor, poderia encará-lo atônita. Não seria incomum, também, que algum transeunte intrometido o interrompesse e o reprovasse severamente por fazer tal pergunta. Nós consideramos a nossa natureza humana como sendo algo tão óbvio, que nunca sonharíamos em ser abordados com uma pergunta como essa. Além disso, como essa pode ser uma pergunta que nunca faríamos a alguém, ela é, por estranho que pareça, uma pergunta que fazemos a nós mesmos, repetidamente. Estudando na escola, lendo em casa, em nossa parada para o almoço, sentados num banco em algum lugar, descansando dos nossos empreendimentos ou esmorecendo em alguma luta – deve sr em alguma destas ocasiões, que perguntamos a nós mesmos: “O que significa ser humano?”. Alguém muito habilmente descreveu o ser humano como um “caniço pensante”, que constantemente oscila para a frente e para trás, entre a certeza e a dúvida. No mesmo instante em que nós afirmamos com toda certeza: “Eu sou um ser humano”, perguntamos: “Mas, o que significa ser um ser humano?”. Alguém certa vez disse: “Nós somos como um gigante que é poderoso o suficiente para levantar o mundo, mas que não pode mover-se nem uma só polegada”. Finalmente, nossa condição humana é algo impossível de ser entendida, por mais que tentemos. Alguém pode objetar: “Mas, por que ir a fundo em todos esses problemas? Estou vivo e isto é o suficiente”. Nós fracassamos em viver dessa maneira, da mesma forma que fracassamos em tentar solucionar essa questão central que afeta toda a nossa vida. Já que não podemos solucioná-la, mais razão temos para nos tornarmos irritados se alguém perguntar: “Desculpe, mas você é humano?”. Formular tal pergunta pode parecer uma maneira estranha para começar uma palestra, e penso ainda, que você concordará que esta é uma questão com a qual nos defrontamos através de toda a nossa vida, e sem dúvida, não existe apenas para distrair filósofos. É uma questão que nós temos presente mesmo, na nossa rotina, na nossa vida diária. Quando algo vai mal, nós dizemos: “O que me aconteceu hoje? O que estou fazendo?”. Mesmo uma pessoa bem sucedida às vezes expressará tristeza para si mesma, dizendo: “O que tenho eu feito com minha vida?”. Tais expressões, vindas da profundidade de nossos corações, revelam o que temos escondido dentro de nós: uma pergunta sem resposta. A vida como nós a conhecemos, é algo incompreensível. Na melhor das hipóteses, temos uma espécie de esperança de vir a compreender:
Em algum lugar, entretanto, deve haver um caminho que leve a um entendimento do significado da vida. Penso que encontrar esse caminho é o propósito de termos nascido como seres humanos. A vida é um processo gradual, durante o qual o significado do nascer e morrer é examinado, e é aqui que são encontradas as dinâmicas implicações do viver. Tal é o problema e o desafio com que se defronta cada pessoa viva. Porém, enquanto esse problema tem suas implicações universais, penso que o mais importante agora é considerá-lo em termos da situação atual da espécie humana. Considerando por exemplo, o percurso dos acontecimentos no mundo moderno, é óbvio que nossa era é de grande sofrimento para o ser humano. Entretanto, nossos ancestrais desde os primórdios da história da humanidade, estiveram à mercê de uma natureza às vezes cruel e violenta e constantemente encararam o perigo do ataque de vários inimigos. O principal desejo das pessoas que nos antecederam era ter uma vida de felicidade, não perturbada por tais perigos. Esse desejo tem acompanhado o homem através de sua história e este, por sua vez, nunca o abandonou, na tentativa de satisfazê-lo. Tais tentativas ajudaram o homem a desenvolver e também a usar amplamente sua especial faculdade, o pensamento racional, sendo esse um processo pleno de lutas e esforços para os nossos ancestrais. Olhando para trás, no curso da história da humanidade, vemos que esse processo surgiu entre sangue e lágrimas desses mesmos ancestrais, pessoas desconhecidas para nós, que arriscaram suas vidas em busca de felicidade. Nós somos o produto desse processo histórico. E ainda, apesar de todos esses árduos esforços por parte de nossos ancestrais para assegurar felicidade à espécie humana, nós nos vemos vivendo uma época de grande sofrimento, jamais vista antes. Tal é a contradição que encaramos todo o tempo em nossa vida diária. Atualmente, para onde quer que olhemos, vemos tecnologias que assumiram o controle do homem moderno, desde sofisticadas armas nucleares capazes de destruírem o mundo num instante, até aparelhos domésticos de uso diário que nenhuma casa deixa de ter. Tal é o resultado da civilização materialista, a implacável tirania da vida moderna, em direção a qual as pessoas correm, buscando a oportunidade de servi-la. O homem moderno, em seu desenvolvimento tecnológico, tem alimentado sua própria alienação. Como no dito: “Quando as máquinas começarem a agir como homens, os homens serão forçados a agir como máquinas”. Pessoas alienadas deixam de ter o seu auto-controle. Elas perdem muito da sua individualidade e por extensão são privadas de seu mais notável valor como seres humanos. A evidência disso pode ser vista na vida diária. Alguém arranja um trabalho e seu amigo o insulta dizendo: “Ei, você conseguiu um grande trabalho porque se vendeu”. Ou se ele perde seu trabalho, alguém diz: “Opa! Eu vou ocupar aquele cargo!”. Estas palavras são ditas casualmente sem nenhuma reflexão profunda mas, vistas por outra perspectiva, mostram que algo frio e desumano adentrou nossas vidas: as pessoas estão sendo avaliadas como uma espécie de mercadoria e suas emoções e individualidade nem sempre são vistas como sendo particularmente necessárias. Quando os filmes de terror eram mais populares, um dos meus amigos observou: “Esses filmes de terror são para o nosso próprio bem. Atualmente, a vida é como algo amarrado e atirado na frente de um caminhão que está vindo. O que podem as pessoas fazer? Ou elas se tornam insensíveis, aceitando qualquer coisa, ou pelo contrário, não aceitam”. O que meu amigo estava dizendo é que as pessoas modernas estão sendo direcionadas para uma situação na qual são forçadas a desistir da sua condição humana. Em face à cruel realidade da nossa época, nós parecemos compelidos a desistir de algo que nos é caro, simplesmente para ter um pouco de paz de espírito. Posso estar exagerando mas, dê uma olhada honesta no mundo ao seu redor e acredito que você concordará que o que afirmo é realmente indubitável. Penso que esta é uma questão que merece cuidadosa consideração. “O que significa ser humano?” – Esta é uma pergunta que devemos fazer a nós mesmos com seriedade, não como mera retórica, mas no âmago mesmo do nosso sofrimento. Os homens antigos, esforçavam-se bastante na busca de independência e felicidade, talvez com uma percepção de que, o verdadeiro destino da humanidade estava na dependência dos seus esforços. Enquanto o esforço dos nossos ancestrais era amplamente efetuado com as forças externas, nosso esforço é uma batalha com o nosso mundo interior, uma luta para a preservação de nossa condição humana. Se perdermos a disposição mental que pergunta: “O que é ser humano?”, então esta batalha no seu verdadeiro sentido estará perdida. Após a Segunda Guerra Mundial, quando o Japão foi reeducado em torno das tendências legais do direito e responsabilidade, suplantando completamente os tradicionais valores japoneses, tais como solidariedade e obrigação, alguém muito acertadamente salientou que “Alguém compelido a mudar por forças externas, torna-se quase como uma peça de uma máquina. Se o direito e a responsabilidade tornarem-se os pontos básicos para o relacionamento humano, então nossa verdadeira essência de ser humano terá sido mudada” Isso não está simplesmente limitado aos relacionamentos entre parentes, tais como aquele entre mãe e filho, marido e mulher ou irmão e irmã. Isso diz respeito à relação do ser humano consigo mesmo, como indivíduo, não importando se ele ou ela seja pai ou filho, marido ou esposa. Em relação aos nossos sempre conflitantes sentimentos, de amor e afirmação para nosso cônjuge ou filhos, nós sempre sentimos uma divisão ou contradição quanto à nossa natureza humana. Quanto mais as relações forem baseadas nesta contraditória linha de pensamento – direito e responsabilidade – mais o amor e o entendimento mútuos que temos serão distorcidos, inevitavelmente, e poderão nunca mais ser autênticos. No Japão, dizemos que o “estilo de vida em apartamento” se refere a pessoas, vivendo em total indiferença em relação àquelas que estão ao seu redor, no mesmo prédio. Acredito que este fenômeno está diretamente relacionado à crescente insistência do viver nos conceitos de “direito e responsabilidade” e este fenômeno tende a influenciar todo o relacionamento entre familiares. Quando as crianças dizem aos pais: “Nós temos o direito de ser educadas por vocês!”, ou então, quando os pais dizem às crianças: “É seu dever respeitar-nos!”, então, não foi esse relacionamento entre pais e filhos diminuído para pouco menos do que um contrato entre estranhos?. Quando pais presos por abuso contra os filhos, dizem calmamente à polícia: “Este filho é nosso, somos livres para fazermos o que quisermos com ele”, ou um arrogante jovem diz: “Eu nunca pedi para nascer”, apesar de haver um pouco de verdade no que estas pessoas dizem, não posso aceitar, e sim lamentar fatos como esses, que demonstrem um relacionamento imposto. Com indiferenças deste tipo se infiltrando em nosso relacionamento com os outros, a verdadeira intimidade, o verdadeiro contato com as pessoas, torna-se cada vez mais difícil, ferindo os outros para preservar nossa própria segurança, nos tornando gradualmente rostos numa multidão solitária. Quanto mais forem nossos relacionamentos humanos desta forma indiferente, mais eles se assemelham às relações entre inimigos, e mais sofrimentos produzem. Entretanto, ao mesmo tempo, temos o persistente desejo de sobrepujar esta situação. Acredito que as pessoas modernas buscam um mundo de amor genuíno, em meio a seus sofrimentos. O homem, pela sua própria natureza, não pode suportar a solidão, e sobre isso, alguém certa vez observou: “Para o homem existe uma punição pior que a morte: a solidão”. Então, como pode acontecer que o homem, colocando a felicidade acima de tudo, venha a sofrer esta “punição pior que a morte?”. Para concluir, podemos perguntar, tal como Pascal, se os homens, por amor à sua própria felicidade, preferem desconhecer-se a si próprios.
Quem sabe quantas pessoas já nasceram na terra? E, no entanto apesar de tantas, há apenas um “eu”, somente um indivíduo que chamo de “eu mesmo”. Entretanto, este “eu” não vive uma vida independente dos outros. Esta vida está entrelaçada obrigatoriamente com as vidas das outras pessoas. Como o ponto de uma rede ou de uma malha, aquele frágil ser chamado “eu” é uma unidade e ao mesmo tempo um ser social na estrutura básica da sociedade. Claro, é desnecessário dizer, que esta é uma parte constituinte da condição humana, quer a reconheçamos quer não. Embora saibamos pouquíssimo sobre esta “condição humana”, certamente nada sabemos sobre como ela se aplica a nós. Por que eu sou japonês e não americano? Por que nasci no século XX e não no XIX? Por que sou homem e não mulher? Por que tive que me tornar órfão? Por que estive doente e não com saúde? Estas são perguntas que não tem respostas exatas. Entretanto, os fatos aí estão. Que nasci no século XX, no Japão, que fui um órfão de saúde precária. Tais fatos são parte da realidade global de quem sou eu. Não podemos mudar esses fatos, nem solicitar que alguém viva a nossa vida por nós. Nós nascemos e isso acontece apenas uma vez e nunca mais. Nossas vidas são individuais, são vidas que jamais alguém pode viver por nós. Em alguma hora, desconhecida por nós, morreremos, sendo portanto nossas vidas de duração finita. E no final, olhando o passado provavelmente concluiremos que nossas vidas foram algo que realmente nunca entendemos. Há algo no homem que torna difícil para ele aceitar o básico, a realidade diária de sua vida. Quem foi que disse: “A pessoa que sou hoje, aceita sofridamente a pessoas que eu poderia ter sido?” Essa afirmativa delineia o sentimento de desespero que se levanta dentro de nós, quando as coisas acontecem sem corresponder aos sonhos e expectativas que temos da vida. Nessas horas, nada podemos mudar, mas apenas sentir desgosto pelo caminho que os fatos seguiram e às vezes até preferiríamos não enxergar a realidade de jeito nenhum, não ter que enfrentar os fatos como realmente são. Este é o estado mental conhecido no Budismo como “ignorância”. Como mencionei anteriormente, nós vivemos não como indivíduos, mas sim como unidades da sociedade. Entretanto, as pessoas tendem a olhar suas relações com a sociedade unilateralmente. Por exemplo, quando deparamos com algum evento inconveniente, nosso primeiro impulso é passar a responsabilidade para alguma outra pessoa, seja ela um dos nossos pais, amigos ou mesmo a própria sociedade. Porém, quanto mais nós relegamos a nossa responsabilidade, mais intolerável torna-se o peso da nossa situação presente. No mundo devastado do Japão pós-guerra, havia uma deprimente canção popular. Chamava-se “Quem me fez mulher?”. Ela descrevia tão bem o estado de espírito popular da época que era cantada por toda parte. Mas, se por um lado, a canção podia adentrar nossos corações, por outro ela nada tinha para nos alegrar. Pelo contrário, quanto mais a cantávamos, mais depressão sentíamos acerca da realidade de nossas vidas. Quando nós perguntávamos “quem me fez mulher?”, recebíamos o seu eco como resposta. Quando o peso da realidade cai sobre nós, podemos suspirar: “Este deve ser o meu destino!”. Este é o profundo alívio que encontramos quando nossas mentes não aceitam o fato de que esta é a realidade das nossas vidas. Este é o suspiro de absoluta resignação que surge de dentro de nós quando nos voltamos para trás, desamparados, no momento mais crítico da realidade, apesar de todos os nossos esforços para colocar o peso da responsabilidade em algum outro lugar. Mas, se não há outros que assumam tal responsabilidade, como podemos lidar com o mundo do sofrimento? Se nós tentássemos tomar toda responsabilidade para nós, poderíamos ser esmagados pelo seu peso. Não podemos nem nos omitir frente às nossas responsabilidades, nem nos deixarmos ser derrotados por elas. A resolução para os problemas da vida repousa na resposta à pergunta do que significa estar vivo. As pessoas sempre usam a frase: “Que surpresa!”. Há algo muito revelador sobre a vida, contido no uso da palavra surpresa. Assisti a uma reportagem em tempos passados, sobre um trágico acidente ocorrido, no qual uma mulher perdeu seu filho. Chorando, ao lado do corpo dele, a mãe afirmou: “Eu poderia suportar qualquer outro fato, mas esta criança era minha única esperança na vida!”. Atingida pelo fato gélido da morte dele, não havia nada que ela pudesse fazer para mudar seu próprio sofrimento mental. Nada podemos fazer a não ser compartilhar com ela sua dor, porque pouco há a ser dito como consolação. Tudo o que ela pode fazer é esperar o tempo curar seu desespero num misto de resignação. A vida de cada pessoa é caracterizada por surpresas e não temos escolha, a não ser aceitar. Sendo assim, como ficam nossas esperanças e aspirações? Nós sofremos por causa da disparidade existente entre aquilo que desejamos e aquilo que realmente temos. Será que não temos mesmo outra escolha, a não ser ir vivendo na dor e no sofrimento, enquanto a realidade frustra nossas esperanças? Há eventos inesperados que dão voltas nas nossas vidas e devemos admitir nossas próprias responsabilidades, quanto aos resultados das situações – ninguém pode fazer isto por nós. Finalmente, nós nos sentimos sozinhos apesar de vivermos entre outras pessoas da sociedade. Admitindo este fato, as pessoas passam sua vida inteira colocando suas esperanças em outras pessoas, ou confiando secretamente em algo, no mundo ao seu redor. Assim, constantemente nós direcionamos nossas esperanças e expectativas para nossos pais, filhos, maridos, esposas, sociedade ou mesmo para o curso dos eventos naturais. Mas, quem é que pode garantir que a vida vai se tornar aquilo que queremos? Ainda não nasceu alguém que garanta isto. As pessoas agem como se tudo fosse acontecer conforme elas esperam – cada um quer ter seus sonhos realizados. Os homens vivem suas próprias vidas acreditando controlar seus próprios destinos, supondo que tudo acontecerá como eles desejam e assim eles preenchem suas vidas com expectativas arbitrárias. Esse caminho de pensamento é o que o Budismo chama de Amarras do Ego. Quando vivemos desta maneira, colidimos inevitavelmente com um obstáculo que nega nossos desejos. Esse obstáculo é a realidade em si aparecendo como uma sombra, que atravessa o conjunto dos nossos desejos destruindo nossos sonhos vazios, sem deixar marca visível. Essa sombra nos deixa justamente na situação que mais tememos, no escuro mundo da solidão. É então que começamos a perguntar: “por que é que nasci?”. Em suma, isto nos remete a uma questão marcante, até fundamental: “Nascemos apenas para questionar o significado da vida?”. A vida em si é algo muito mais importante do que qualquer pergunta que possamos fazer, quanto ao seu significado. A vida é algo além do poder de entendimento da mente racional. Ninguém nasceu com a garantia de que a vida se tornará naquilo que se deseja nem tampouco que a vida oferecerá algum significado. Aquilo que supomos arbitrariamente sobre o significado da vida é produto de nossas amarras, é algo que somos forçados a enfrentar quando estas suposições colidem com os fatos inevitáveis da vida diária. A vida existe a um nível muito mais profundo do que aquele da especulação influenciada pelo ego e assim permanece sem sofrer influência de nossos pensamentos e expectativas. Assim, se nós tentarmos conduzir a realidade para ceder lugar às nossas esperanças, essa tentativa simplesmente alimenta nosso próprio sofrimento, pois esse – sofrimento – está todo dentro da estrutura básica da realidade, que permite que nossas vidas existam. É somente quando nossas esperanças esmaecem e nossos sonhos não se realizam, que somos forçados a repensar nossas atitudes básicas em relação à vida. Duas pessoas não vivem num mesmo mundo, apesar de todos nós termos nascido neste mesmo mundo que chamamos de planeta Terra. Como “Mesma cama, sonhos diferentes”, cada pessoa, mesmo aquela mais profundamente integrada nos seus relacionamentos, vive num único mundo todo seu. Mesmo pessoas que passam suas vidas inteiras juntas, ainda vivem seus próprios mundos, separados, com suas próprias expectativas e esperanças separadas. Essa distância entre os mundos próprios das pessoas é algo que nunca foi realmente percorrido. Podemos dizer que acreditamos em alguém, que amamos alguém, mas realmente nossa mente voltada para si, só sabe dela mesma. Nossos padrões – quem são nossos amigos, do que gostamos, o que consideramos bom ou mau – são todos baseados nos nossos sentidos subjetivos. É este mundo de relações cármicas, caracterizado por um incalculável armazenamento de porquês e razões, que eventualmente nos dirige para o escuro mundo da solidão e do medo. Embora, tal distância entre nossas mentes nunca deixe de existir, o espírito humano nunca perde a esperança em seus esforços para não se isolar. Nos nossos corações, estamos todos buscando desesperadamente um mundo de verdadeira união com as outras pessoas – tal é a busca para a comunhão espiritual. Essa busca é algo de grande profundidade, excedendo em muito os impulsos do nosso ego consciente. Nessa profunda busca vemos que a comunhão espiritual faz parte da nossa realidade primordial. Esta comunhão é a mais profunda aspiração do ser humano. Todas as criaturas vivem sujeitas à lei da sobrevivência do mais apto, as fortes vivendo das fracas. Tal é o caminho natural. Se uma flor é bela ou uma cobra é feia, no final das contas é irrelevante. A flor e a cobra são ambas partes de um mesmo mundo. Claro, porém, que só o homem questiona seu caminho, só o homem não se adapta totalmente à miséria da vida. Matar é matar, seja uma cobra que come uma rã ou um homem que tira a vida de outro em defesa própria. Entretanto, o homem pode ter consciência de seus atos e, portanto ter sentimentos acerca do que faz. Sendo assim, nunca podemos ser completamente indiferentes às incontáveis vidas com as quais temos que interagir para manter as nossas próprias. Assim sendo, tentar viver e acordo com nossos padrões de certo e errado, nunca pode nos aliviar de algo que fazemos, pois o sofrimento permanece alojado nas profundezas da nossa vida. Esse é um sofrimento cármico, sofrimento que surge como resultado de nossas próprias atitudes. Todos nós causamos sofrimentos, um após outro; no entanto, isso é feito irrefletidamente. Não importa quais sejam nossas atitudes, nosso verdadeiro impulso é sempre direcionado à criação de um mundo harmonioso. Finalmente, o mais profundo sofrimento que podemos experimentar, é o de não estarmos aptos a realizar tal coisa. Certa vez um conhecido ma perguntou: “Por que tenho que me sentir mal diante de tudo que faço?” Se um homem tiver que preservar sua humanidade, acredito que esse sentimento seja vital. A única coisa que aquele homem acha inconsolável na vida é o fato de que constantemente causamos sofrimentos e angústias aos outros e não temos escolha quanto a isto. O que finalmente direciona o homem para a religião, e para a verdadeira aceitação do que ele é, é esse sofrimento sem esperança no qual ele é posto, face a face com a agonia e o desespero da condição humana e também com sua profunda aspiração de buscar a verdade. As nossas expectativas diante da vida nunca correspondem à realidade da mesma. A vida em si vai muito além das nossas expectativas para com ela e é isso que é revelado nos verdadeiros ensinamentos religiosos. Se olharmos a realidade do ponto de vista das nossas expectativas egocêntricas, sempre teremos o sentimento de que fomos enganados aqui ou acolá. Entretanto, quando a verdadeira natureza da vida nos é revelada pelos ensinamentos religiosos, percebemos que todas as coisas, em verdade, foram globalmente instrumentadas para nos fazer tais como somos. Nossa vida presente é sustentada não apenas pelas outras pessoas, mas por todos os seres vivos que nos cercam no mundo. É isso que o verdadeiro ensinamento religioso revela como a própria realidade da vida. Um poeta certa vez escreveu: “Todas as coisas na vida foram feitas só para mim. Mesmo por um único dia, como é preciosa a minha vida!”. Nessa passagem, percebemos uma ilimitada gratidão por estar vivo. A mesma vida que certa vez desejamos que alguém pudesse viver em nosso lugar, é rapidamente transformada em algo pelo qual somos profundamente gratos. Quando este mundo de gratidão se abre para nós, estamos libertos da solidão e do isolamento e carmicamente falando, nós nos enxergamos como parte de um grande sistema que gera a vida, como se nós fôssemos mãe ou pai, irmão ou irmã de todos os outros seres vivos. E nossas vidas tornam-se algo de profundo significado, distanciando-nos do desejo de que alguém possa vive-las por nós. O Manshi Kiyozawa, explicou claramente o relacionamento da vida com a religião no seguinte texto:
Aqui, questões tais como se a religião é ou não necessária ao homem, são completamente irrelevantes – não é para o ganho pessoal que o homem busca a religião, mas porque o direcionamento religioso é algo básico às necessidades do espírito humano. O sofrimento humano cresce exatamente, quando esse direcionamento é frustrado e as buscas para a verdadeira religiosidade permanecem adormecidas. Desenvolvi minha palestra de uma maneira indireta, começando com uma questão que parecia desnecessária: “O que é ser humano?”. Quando porém refletimos seriamente no problema, vemos que o homem moderno à primeira vista está satisfeito com o progresso da civilização atual, mas em verdade, ele sofre com a alienação e a perda da sua própria humanidade. Disto tudo fica claro que o homem realmente ainda tem que entender o que significa ser humano. E para descobrir este significado é necessário que olhemos para dentro de nós mesmos através do verdadeiro ensinamento religioso. Tal é o fato essencial que devemos ter em mente quando buscamos resposta à nossa questão original: “O que é ser humano?”
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