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Ricardo
Mário Gonçalves II
Capítulo
Não obstante as raízes do Amidismo estarem no Budismo indiano, como vimos, foi só na China que temos notícia de seu desenvolvimento como movimento religioso autônomo. O Budismo, cuja expansão fora remonta ao reinado de Açoka (século III a.C.), começou a penetrar na China nas primeiras décadas da era cristã ou talvez mesmo um pouco antes. A penetração chinesa na Ásia Central a partir do século II a.C., a ocupação das cidades-estado do Turquestão Oriental, o controle da Rota da Seda e o estabelecimento de relações comerciais com a Índia é que facilitaram essa penetração, uma vez que o Budismo já era professado pelos povos nômades e sedentários que viviam nessas regiões além das fronteiras ocidentais do império dos chineses, por eles englobados sob a denominação genérica de “Região do Ocidente”. Ao estudar os primórdios do pensamento chinês, devemos ter em conta os seguintes fatos: a) De uma maneira geral, o Budismo que
penetrou na China não veio diretamente da Índia, mas sim por intermédio
dos povos da Ásia Central que já haviam assimilado a doutrina. A maioria
dos primeiros missionários estrangeiros que iniciaram a pregação do
Budismo na China não era indiana, mas sim constituída de partas, indo-citas
e outros elementos oriundos do Turquestão. Assim, devemos lembrar que o
Budismo que chegou à China já estava marcado por uma série de influências
não-indianas. Ambos os fatos acima precisam ser levados em conta ao examinarmos o processo de introdução do Amidismo na China. Sabemos que ele penetrou na China por intermédio da Ásia Central, uma que os primeiros tradutores do Grande Sukhâvatîvyûha, para o chinês foram o parta An Chen-Kao e o indo-cita Lokaksema (século II d.C.)2. Tais vinculações com o Centro da Ásia, somadas ao fato da penetração da religião de Zoroastro na China durante a Dinastia Tang (618-907) constituem em ponto a favor dos que defendem a tese de influências iranianas no Amidismo. Por outro lado, pode-se apontar uma série de aproximações entre o Amidismo e o Taoísmo que favorecem a difusão do primeiro em solo chinês: a) A associação entre a idéia de Imortalidade
defendida pelo Taoísmo com o conceito de Vida Imensurável contido no próprio
nome de Amida; Três são as principais correntes do Amidismo chinês. A mais antiga remonta ao mestre Hui-Yuan (334-416), a segunda, que é a que mais influenciou o Amidismo japonês, foi formada pelos mestres Tan-Luan (476-542), Tao-Chao (562-645) e Chan-Tao (613-681), e a terceira se inicia com o mestre Tzu-Min (686-748). Hui-Yuan, estudioso das teorias da Escola Mâdhyamika, deu origem a uma escola amidista bastante influenciada pelo Taoísmo, na qual predominavam as práticas ensinadas pelo Pratyutpannasamâdhisûtra. Fundou a chamada “Confraria do Lótus Branco”, organização devotada à prática das meditações amidistas e protótipo de numerosos movimentos similares que surgiram posteriormente na China. Quanto a Tzu-Min, foi o único patriarca amidista que teve ocasião de viajar à Índia. Sua doutrina, profundamente influenciada pela Escola Ch’an (Zen) anunciava a associação entre essa escola e o Amidismo que até hoje caracteriza o Budismo chinês4. Tan-Luan, Tao-Chao e Chan-Tao merecem maior atenção de nossa parte, dadas as suas vinculações com o Amidismo japonês. Tan-Luan, a princípio monge budista especializado em estudos sobre a Escola Mâdhyamika, chegou a deixar a Lei de Buda durante uma fase de sua vida, seduzido pelas doutrinas taoístas que prometiam a imortalidade física. Mais tarde, encontrou-se com o monge indiano Bodhiruci que lhe transmitiu o ensinamento amidista. A ele devemos um comentário ao Sukhâvâtîvyûhaupadésasastra, no qual pela primeira vez, dentro do pensamento amidista, é claramente definida a oposição entre o caminho da realização através do esforço de cada um (Jiriki, em japonês) e a via de realização através do poder de outrem (Tariki), que caracteriza a doutrina da Terra Pura. Além disso, deu ele profundidade filosófica às teorias amidistas, harmonizando-as com as posições da Escola Mâdhyamika5. Seu principal sucessor foi Tao-Chao, que se converteu ao amidismo ao ler uma inscrição por ele deixada. Seu principal trabalho é o An-lo-chi (Livro da Paz e da Felicidade), onde a doutrina amidista relativa à salvação através do poder do nome de Amida, denominada “Portão da Terra Pura” (Jôdo-mon em japonês) é colocada em oposição às outras escolas budistas, que ensinam a realização através do próprio esforço e são agrupadas sob a denominação de “Portal do Caminho Sagrado” (Shôdô-mon em japonês). Tao-Chao foi o primeiro mestre amidista a abordar o problema da maldade e fraqueza do homem, que o impossibilitam a realizar-se através do Shôdômon, só lhe restando recorrer à Grande Compaixão de Amida que lhe oferece a perspectiva de salvação pelo Jôdomon. Ao tratar dessa questão da impotência do homem em salvar-se pelo próprio esforço, explica-a através da degradação progressiva da natureza humana a partir dos tempos de Sâkyamuni, introduzindo pela primeira vez no Amidismo a Teoria da Decadência. Colocou ênfase na prática da recitação do nome de Amida, difundindo o hábito de contar as evocações através de grãos de cereais. Com tais simplificações, o Amidismo começou a ser amplamente difundido em meios populares6. Seu principal discípulo foi Chan-Tao, organizador da liturgia amidista e divulgador de pinturas da Terra Pura como meio de difusão da doutrina entre o povo. Foi dos três o que mais influenciou os amidistas japoneses; nele Hônen encontrou as fontes de sua doutrina. No seu tratado sobre o Amitâyurdhyânasûtra Chan-Tao estabelece uma classificação das diversas práticas amidistas, definindo a recitação do nome de Buda como “prática principal” e relegando a segundo plano a leitura de Sûtras, a meditação, a adoração e as oferendas, como “práticas auxiliares” e distingue essas cinco “práticas corretas” que caracterizam o Amidismo, das demais práticas budistas, rotuladas como “diversas”. Em sua obra continua a desenvolver o tema da maldade e da fraqueza do homem, dentro da linha iniciada por seu mestre7. Além desses mestres genuinamente amidistas, devemos lembrar, por causa de sua influência no processo de formação do Amidismo Japonês, figura de Chi-i (531-597), fundador da Escola Tien-T’ai, um dos mais notáveis movimentos budistas chineses, do ponto de vista da profundidade filosófica. Sua doutrina, baseada no Saddharmapundarikasûtra apresentava uma abertura para outras idéias budistas, além de algumas influências taoístas. Além de escrever um curto tratado sobre o Amidismo, Chi-i apresenta no Moho-chi-kuan, seu monumental tratado sobre meditação e contemplação, práticas amidistas de meditação baseadas principalmente no Pratyutpannasamâdhisûtra. Destaca-se o chamado “samâdhi da prática constante” (em japonês: Jôgyô-zanmai) que consistia em marchar durante 90 dias em torno da estátua de Amida, recitando constantemente seu nome8.
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