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Ricardo
Mário Gonçalves II
Capítulo consiga provar a autenticidade dessas obras, postas em dúvida por muitos especialistas2. No Tenjukokushuchô, conjunto de duas pinturas, feitas pela Senhora Tachibana em memória do Príncipe em 622 é retratado um misterioso
Ainda que o movimento amidista só se tenha firmado no Japão como escola independente nos fins do século XII com Hônen, sua influências nesse país são bastante antigas, remontando à própria época da introdução do Budismo. Henri de Lubac, citando A. K. Reischawer, menciona a possibilidade de que a estátua dourada de Buda ofertada em 552 ao imperador Kinmei pelo rei Seime do reino coreano de Kudara, quando da introdução oficial do Budismo no Japão, fosse uma representação de Amida, o que entretanto, não é confirmado por nenhum especialista japonês1. O Príncipe Shôtoku parece ter sido o primeiro personagem da história japonesa associado ao Amidismo. Nos comentários atribuídos ao mesmo sobre o Saddharmapundarikasûtra, o Sûtra de Vimalakîrti e o Sûtra da Senhora Srîmâlâ existem citações do Grande Sukhâvati, o que demonstra que o mesmo já era conhecido no Japão na época do Príncipe, caso se paraíso, o Tenjukoku, que alguns autores acreditam ser a Terra Pura de Amida, ao passo que outros interpretam como sendo o Paraíso de Maitreya, o Buda do Futuro ou mesmo uma idealização da Índia – Tenjiku em japonês3. No Templo Hôryûji, construído pelo Príncipe Shôtoku em 607, havia afrescos, pintados no início do período de Nara, destruídos por um incêndio em 1949, nos quais estavam representados diversos paraísos: a Terra Pura de Amida, o paraíso de Maitreya, o paraíso de Bhaisajyaguru e o paraíso de Sâkyamuni, o que atesta a crença em uma série de paraísos diferentes, cada um deles associado a uma divindade4. No mesmo templo é conservada a Tríade de Amida, objeto particular de devoção da Senhora Tachibana; trata-se de uma representação escultural de Amida sentado em trono de lótus ladeado por seus dois acólitos, os Bodhisattvas Avalokitesvara (Kannon) e Mahâsthamaprâpta (Seishi), com toda a certeza uma das mais antigas do Japão5. No Templo Zenkôji, em Nagano, também existe uma famosa Tríade de Amida considerada pela tradição como sendo a mais antiga obra de escultura budista existente no Japão. Chegam a atribuir-lhe origem indiana. Várias lendas afirmam que esse templo teria sido fundado pelo Príncipe Shôtoku em 6026. O que não pode ser posto em dúvida é que no ano de 640 o monge Eon, que estudara na China, ministrou na corte do imperador Yomei o primeiro curso no Japão sobre um texto amidista, o Grande Sukhâvatîvyûha, tendo-o repetido em 651 diante de mil monges. Eon estudara na China durante mais de 30 anos, na mesma época em que Tao-Chao difundia as doutrinas amidistas naquele país. Em 689, registrou-se a chegada ao Japão de duas estátuas de Amida trazidas do continente. Entretanto, não se pode falar ainda em uma doutrina amidista perfeitamente diferenciada, dentro do Budismo japonês7. Durante o período de Nara vários monges eruditos escreveram tratados sobre textos amidistas e a crença no Sukhâvati se sobrepôs às relativas aos demais paraísos búdicos. Surgiram também mais obras de arte de inspiração amidista. Sabemos por um catálogo do Museu Imperial de Shôsôin de Nara que nessa época os principais textos amidistas da Índia e da China já haviam sido introduzidos no Japão o que permitiu aos monges Chikei (732-754?), Zenju (723-769) e Chikô (709?-780?) escreverem tratados explicativos do Grande Sukhâvatîvyûha lançando assim as bases teóricas do Amidismo Japonês. A Chikô também devemos o plano de um Mandala amidista, Chikô Mandala, que juntamente com o Taima-Mandala pintado na mesma época foi inspirado nas pinturas chinesas do Sukhâvati. Entretanto, no período Nara, o Amidismo permaneceu como uma crença reservada a certos monges, não se difundindo entre os leigos. O Amidismo era encarado mais como um conjunto de ritos destinados a propiciar a felicidade dos mortos no além-túmulo do que propriamente uma doutrina de salvação. Segundo uma pesquisa do historiador Mitsusada Inoue, 37 imagens de Amida e de seu paraíso foram elaboradas no Japão durante o período de Nara e décadas anteriores, sendo que das 19 sobre as quais temos informações sobre os motivos que levaram à sua criação, apenas uma não está ligada ao culto dos mortos. A construção de templo e o Shakyô – prática devocional que consistia em copiar Sûtras – tinham também a mesma motivação8. Uma das contribuições do Budismo para o pensamento japonês que mais importância teve para a elaboração e difusão do Amidismo nipônico foi a divulgação de idéias sobre a vida futura baseadas em elementos da cosmologia indiana agregados à doutrina budista. Até a introdução do Budismo, a religião japonesa só tinha idéias bastante imprecisas sobre o além-túmulo, como por exemplo o yomi, mundo subterrâneo dos mortos em que dominam as trevas, a decomposição e a impureza, que aparece citado no Kojiki. O comportamento humano era definido em termos de pureza – tudo o que se associava à felicidade, ao crescimento, à vida e sua conservação – e à impureza – tudo o que se associava ao derramamento de sangue, decadência, doença e morte – não existindo nenhuma preocupação de ordem moral. O Budismo trouxe pela primeira vez uma preocupação ética vinculada com a idéia do Karman – as ações, pensamentos e palavras humanas acarretando ao homem boas ou más conseqüências, conforme a natureza das mesmas. Acreditava-se assim que o destino do homem na outra vida dependesse diretamente de seu comportamento nesta existência, podendo ele renascer como ser humano, animal, habitante dos infernos, espírito faminto (preta em sânscrito, gaki em japonês), titã (asura em sânscrito, shura em japonês) e ser celestial (deva em sânscrito, tennin em japonês). Tais condições da vida futura não eram consideradas eternas, mas apenas de maior ou menor duração conforme a intensidade do Karman da pessoa. Constituíam elas os chamados “Seis Caminhos” (Rokudô) em que se dividia o mundo da impermanência e sofrimento (Samsâra em sânscrito, shôji ou rinne em japonês), no qual todos os seres se achavam encadeados, sujeitos a uma sucessão ilimitada de nascimentos e mortes que só poderia chegar ao fim com experiência suprema de realização como Buda (Jôbutsu em japonês). Acreditava-se que os rituais e práticas edificantes realizados em memória de um morto (tsuizen kuyô) permitissem que o mesmo “queimasse” o seu karman, assegurando-lhe uma vida futura agradável ou mesmo a experiência do Jôbutsu, daí a grande popularidade dos ritos fúnebres. Entretanto, no período de Nara tais crenças ainda não haviam impregnado totalmente os aristocratas e letrados como vemos em alguns poemas do Mannyôshû que a vida futura era encarada com ceticismo e mesmo com ironia:
Já no período Heian tais crenças serão encaradas mais seriamente, constituindo as bases do chamado Amidismo Aristocrático.
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