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Ricardo
Mário Gonçalves II
Capítulo
O Budismo no período Heian se caracterizou, como já vimos pela predominância das Escolas Tendai e Shingon. Ambas favoreceram bastante a difusão do Amidismo, principalmente a primeira, que em sua forma original chinesa, Tien T'ai, compreendia uma meditação de natureza amidista, o "samâdhi da prática constante", como já foi explicado. Da Escola Tendai saíram, aliás, os grandes patriarcas amidistas japoneses, como veremos. Na época de Saichô, o fundador da Escola Tendai, as meditações amidistas ainda não haviam sido introduzidas no mosteiro Enryakuji. Foram elas trazidas por seu sucessor Ennin ou Jikaku Daishi (794-864), que fez um longo estágio na China, de 830 a 850, onde assimilou não apenas as doutrinas da Escola Tien T'ai, mas também o Budismo Esotérico Vajrayâna e uma série de práticas e ensinamentos amidistas. De volta ao Japão, construiu no Mosteiro Enryakuji o pavilhão Jôgyô-zanmai-dô, em 848, junto à Torre Oriental (Tôtô), destinado à prática das meditações amidistas pregadas no Moho-chi-kuan, mas invés das mesmas, estabeleceu o Inzei Amidakyô, que consistia em cantar o Pequeno Sukhâvatîvyûha e o Inzei Nembutsu, ou o nome de Amida cantado. Tais práticas se baseavam em rituais amidistas difundidos na China e constituíam em seu conjunto, o chamado Fudan Nembutsu (Nembutsu contínuo). So-ô (831-916), discípulo de Ennin, persistiu na prática do Fudan Nembutsu e erigiu outro Jôgyô-zanmai-dô em 883. Mais tarde, pavilhões semelhantes foram construídos também em templos da província. Tais práticas amidistas no mosteiro Enryakuji tornaram-se bastante célebres e são freqüentemente citadas na literatura do Período Heian como o Yama-no-Nembutsu (Nembutsu da montanha)1. As crenças amidistas tiveram grande aceitação entre os monges da Escola Tendai. O supra citado So-ô e o monge Sômyô (843-927) morreram voltados para a direção oeste, murmurando o nome de Amida. Enshô (880-965) também dedicou grande parte de sua vida às práticas amidistas e inaugurou o costume, posteriormente seguido por muitos monges e leigos, de segurar, na hora da morte, a ponta de um cordão amarrado na mão de uma estátua de Amida. Tal fato mostra, aliás, a difusão no Japão, da crença no Raigô ou "descida" de Amida e seus acólitos junto à cabeceira de um moribundo para conduzi-lo ao Sukhâvati. O raigô inspirou inúmeras composições artísticas não só na Ásia Central e na China mas também no Japão, onde temos um primeiro exemplo na já citada Taima-mandara. Outro pensador da Escola Tendai influenciado pelo Amidismo foi Ryôgen (912-985) que procurou harmonizar as doutrinas do Lótus da Boa Lei com as doutrinas e práticas amidistas. Deixou ele um comentário do trecho do Amitâyurdhyânasûtra referente às nove categorias de pessoas salvas por Amida, no qual ressalta a importância da prática do Nembutsu na hora da morte como garantia da salvação. Seu Nembutsu era fortemente impregnado de elementos das técnicas Tendai de meditação e contemplação. Consta que ao morrer murmurava o nome de Amida, enquanto procurava contemplar com seu espírito o verdadeiro aspecto dos fenômenos, segundo os ensinamentos do Lótus da Boa Lei 2. Muito mais importante para a consolidação e propagação do Amidismo durante o século X foram Kûya (903-972) e Genshin (942-1017). Kûya, também conhecido como Kôya, parece ser descendente de príncipes imperiais. Ordenou-se por volta dos 20 anos de idade no templo provincial de Owari e, à semelhança de Gyôgi, passou muito tempo percorrendo as províncias, abrindo estradas, construindo poços e dando sepultura aos mortos abandonados nos campos. Com 36 anos foi para Kyoto, onde passava os dias percorrendo os mercados e difundindo a fé amidista entre o povo. Passou por isso a ser conhecido como Ichi-no-hijiri, "o santo dos mercados". Praticava também rituais de magia de natureza esotérica. Aos 46 anos de idade ingressou no mosteiro Enryakuji onde completou sua formação, continuando depois disso a divulgar o Amidismo não só entre o povo, mas também entre a nobreza. Dentre seus discípulos destaca-se a figura de Senkan (918-983), que obedecendo as instruções de seu mestre, renunciou à sua condição de monge do alto Tendai, que lhe propiciava freqüentes contactos com a aristocracia e honrarias diversas para viver humildemente na província, entregue ao estudo e às meditações amidistas3. Por sua atividade entre o povo, Kûya e seus discípulos se vinculam mais à linha do Budismo não oficial inaugurada por Em-no-Ozunu e por Gyôgi do que às comunidades associadas ao Estado. Mais decisiva para a formação do Amidismo aristocrático foi a atuação de Genshin (942-1017). Natural da província de Yamato, Genshin, também chamado Eshin, perdeu pai Urabe Masachika em tenra idade. Aos 9 anos de idade ingressou no mosteiro Enryakuji, onde se tornou discípulo de Ryôgen. Dotado de uma grande facilidade para o estudo e de um forte pendor para a oratória, fez uma carreira brilhante como redator de tratados de lógica budista e instrutor. Subitamente, porém, renunciou a todas as honras para viver retirado no pavilhão de Yokawa, no mosteiro de Enryakuji, onde passou a se dedicar ao estudo do Amidismo e à orientação de irmandades leigas dedicadas a práticas devocionais amidistas. Escreveu nessa fase, tratados como o Ôjôyôshû (Notas Essenciais sobre a Salvação), o Amidakyô-ryakuki (Comentário sobre o Pequeno Sukhâvatîvyûha) e o Kanshin-ryakyôshû (Resumo de Notas Essenciais sobre a Contemplação do Espírito) em que procura fazer uma síntese entre o Amidismo e as doutrinas Tendai. Morreu segurando a ponta de um cordão amarrado à estátua de Amida, a exemplo de vários de seus predecessores. Uma síntese de sua doutrina amidista é encontrada num pequeno texto, o Yokawa-hôgo (Sermão de Yokawa)4 :
De todos os trabalhos de Genshin o mais importante foi o Ôjôyôshû, que contribuiu extraordinariamente para a difusão do Amidismo entre a nobreza da época, além de ter exercido considerável influência sobre a literatura e as artes e de ter se constituído no ponto de partida para as reflexões de mestres amidistas posteriores. O Ôjôyôshû já foi comparado, e com razão, à Divina Comédia de Dante, por causa das impressionantes descrições que apresenta dos seis planos ilusórios da existência7 e da Terra Pura de Amida8. O objetivo do autor era apresentar toda a miséria da condição dos seres viventes, através das descrições dos sofrimentos dos infernos e demais condições da existência para depois apresentar as alegrias e a perfeição da Terra Pura de Amida, despertando assim, no fiel, um desejo ardente de alcançá-la. Apresenta em seguida os métodos concretos para conseguir o renascimento na Terra Pura, que consistem nas meditações amidistas da Escola Tendai9. Para Genshin, o Nembutsu é antes de tudo uma contemplação minuciosa da figura de Amida e de seu paraíso10. Particular atenção é dispensada à prática do Nembutsu na hora da morte. Minuciosas instruções são ministradas quanto à instalação do moribundo num quarto diferente do habitualmente por ele utilizado, longe de seus objetos de uso pessoal, para facilitar uma atitude de desapego e desligamento da existência. São apresentados modelos de discursos para os amigos do moribundo repetirem, com o objetivo de manter a mente do mesmo fixada no Nembutsu11. Não obstante sua ênfase nas práticas de meditação e contemplação, na observância dos preceitos e outras práticas do Budismo tradicional, Genshin não esquece as fraquezas da condição humana e das dificuldades ou mesmo da impossibilidade de muitos em se imporem semelhantes disciplinas. Para esses, Genshin ensina um método simplificado de meditação que consiste em visualizar mentalmente a Ulna (ponto fulgurante semelhante a um terceiro olho que a tradição coloca na testa dos Budas) de Amida. Prevendo ainda a existência de pessoa para quem até mesmo esse exercício simples não é praticável, recomenda, como último recurso, a recitação pura e simples do nome de Amida. Nessas reflexões sobre as fraquezas humanas e na apresentação da recitação do nome de Amida como meio de salvação, vemos em Genshin o precursor direto de Hônen e do Amidismo do período Kamakura12. Dentre os contemporâneos de Genshin, merece destaque a figura de Kakuren (953-1007), que também escreveu vários tratados amidistas e difundiu o Nembutsu na Corte13. Até agora vimos o desenvolvimento do Amidismo no que toca aos monges. Cumpre agora verificar sua repercussão entre os leigos. Durante o século X, o Amidismo alcançou ampla repercussão entre a grande e pequena nobreza, graças à atuação de Genshin e Kakuren. Formaram-se irmandades dedicadas à prática do Nembutsu sob a orientação de Genshin e outros mestres, das quais as mais importantes foram as organizadas por Yoshishige-no-Yasutane, aristocrata falecido em 1002, autor do Nihon Ôjôgokurakuki, coleção de biografia de místicos amidistas japoneses. Tais irmandades congregavam principalmente elementos da pequena e média nobreza, mas o Amidismo encontrou receptividade também entre os grandes senhores Fujiwara. No período de maior prestígio da família Fujiwara, nos fins do século X e no início do século XI, as crenças amidistas eram muito prestigiadas pela Corte, como atestam o Romance de Genji e outras produções literárias da época. Os Fujiwara construíram muitos Amida-dô (Pavilhões de Amida) como o suntuoso templo de Hosshôji, construído por Michinaga em 1019, com a intenção de obter cura para uma doença, ou o Byôdô-in de Uji, nas vizinhanças de Kyoto, construído por seu filho Yorimichi. Esses templos ricamente ornamentados eram um reflexo do poderio dos Fujiwara e representavam um esforço dos mesmos para reproduzir nesta terra as maravilhas do Paraíso de Amida. Entretanto, se entre os grandes aristocratas predominavam os aspectos alegres e brilhantes do Amidismo, entre a pequena e média nobreza a consciência da impermanência das coisas e da precariedade da condição humana tendeu a se acentuar cada vez mais, motivada pela insegurança de sua situação e pela crescente desordem do país. A difusão da idéia da decadência do mundo e a leitura da obra de Genshin, principalmente na parte referente aos infernos e às misérias humanas acentuaram ainda mais o sentimento de rejeição do mundo. Não devemos esquecer, porém, que nem entre os grandes, nem entre os pequenos aristocratas, encontramos ainda um Amidismo puro; as doutrinas da Terra Pura apresentam-se ainda fortemente sincretizadas com as Escolas Tendai e Shingon14. Além dos pensadores amidistas vinculados à Escola Tendai de que tratamos, encontramos no período Heian outros, ligados às velhas escolas budistas de Nara ou ao Esoterismo Shingon. No primeiro caso, destaca-se a figura de Yôkan (1032-1111), monge da Escola Sanron que dedicou parte de sua vida às meditações amidistas e à redação de trabalhos sobre as mesmas. Ao contrário de Genshin, que dava ênfase às contemplações, Yôkan insistia mais na prática da recitação do nome de Amida15. No segundo caso, merece especial destaque a figura de Kakuban (1095-1143), que, vivendo numa época em que as idéias e práticas amidistas gozavam de grande popularidade, adaptou-as às doutrinas esotéricas da Escola Shingon. O Amidismo de Kakuban difere bastante do tradicional, uma vez que Amida e seu Sukhâvati são encarados como símbolos no interior do coração do crente, que em última análise é salvo não pelo Voto salvador de Amida mas sim por seus próprios exercícios de meditação e contemplação, que visam à identificação final entre Amida e seu próprio espírito16. Na mesma época encontramos um outro monge da Escola Tendai, Ryônin (1072-1132), responsável pela elaboração de um novo tipo de Nembutsu, o Yûzû-Nembutsu ou "Nembutsu Circulante". Originário de uma rica família de guerreiros da província de Owari, Ryônin estudou no mosteiro Enryakuji, de onde se retirou para a localidade de Ohara, onde fundou o pavilhão Raigô-in, onde se entregou ao estudo dos sûtras do Mahâyâna e às meditações amidistas. Quando tinha 46 anos de idade, anunciou ter recebido, durante uma meditação amidista, o ensinamento do Yûzû-Nembutsu diretamente do próprio Amida. Sua doutrina, baseada nas idéias de identidade entre o Uno e o Múltiplo e entre o Todo e as Parte, encontradas na Escola Tendai e no Avatamsaka, partia da idéia de que o Nembutsu praticado por uma pessoa influi sobre o de todas as demais e que o Nembutsu praticado pelos outros fortifica o nosso. Assim, aquele que pratica o Nembutsu para sua própria salvação está na realidade trabalhando pela salvação de todos os seres. À semelhança da doutrina de Kakuban, Amida e a Terra Pura são vistos como existentes no interior do coração do praticante. Entretanto, a doutrina de Ryônin representa uma notável simplificação do Amidismo contemplativo do Budismo aristocrático, constituindo-se numa precursora direta da idéia de salvação pelo poder externo (Tariki) do Amidismo do período de Kamakura. Consta que Ryônin difundiu seu Yûzû-Nembutsu entre a nobreza e o povo, tanto na capital como nas províncias, até falecer em Ohara com 61 anos17.
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