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Ricardo
Mário Gonçalves III
Capítulo
O primeiro texto japonês de que se tem notícia a mencionar a idéia de Mappô é o prefácio do terceiro e último rolo do Nippon Ryôiki (Relato de Milagres e Maravilhas do Japão), coletânea de contos e narrativas eficientes de fundo budista compilado por Keikai, monge do templo Yakushiji, de Nara. As datas do nascimento e a morte de Keikai são desconhecidas. Sabemos apenas que ele se tornou monge por volta de 788 e que sua obra foi terminada entre 809 e 8231. O referido texto é alvo de muitas controvérsias, uma vez que não consta de todos os manuscritos da obra que chegaram até nós, mas apenas de um deles, o conservado nos arquivos da família Maeda. É considerado de autenticidade duvidosa e um dos mais fortes argumentos a favor da tese de uma interpolação é justamente o fato de que as teorias do Mappô só se tornaram populares no Japão a partir do século X. A Profª Kyoko Nakamura não exclui totalmente a possibilidade de sua autenticidade, mas o Prof. Tomoyuki Itabashi chegou a eliminá-lo de sua edição do Nippon Ryôiki2. O texto em questão diz o seguinte:
Em sua autobiografia que encontramos na 3ª narrativa do 3º rolo, Keikai alude a uma série de crises de seu tempo: a revolta de Oshikatsu, durante o reinado do Imperador Shômu e as conspirações do monge Dôkyô no sentido de usurpar o trono5. Lembremos também que Keikai tinha uma visão pessimista de sua época, que aparece no prefácio do primeiro rolo de sua obra:
Vemos assim que, dada a época em que viveu Keikai e sua visão do mundo expressa nas palavras acima, não é inverossímil que tenha ele se preocupado com o Mappô, não obstantes as dúvidas quanto a autenticidade do texto em questão. Na mesma época, Zenjû (722-797), monge da seita Hôssô, mencionou o Mappô em seus escritos e expressou seu desejo de renascer na Terra Pura, mas não revela nenhuma consciência histórica. A mesma afirmação é válida em relação às obras de Antô, Chikô e Touitsu, que escreveram no mesmo período. Segundo os Profs. Kyôichi Kazue e Encho Tamura, os textos sobre o Mappô encontrados no Japão nos séculos VIII e IX não despertavam interesse por não haver nesse país problemas sérios de decadência moral dos monges, ou perseguições ao Budismo, como na China7. No início do período Heian, com Saichô e Kûkai, temos textos mais importantes sobre o Mappô. Considerando em primeiro lugar o caso de Kûkai, mais simples e menos alvo de controvérsias, que vemos que ele, embora mencionando a teoria do Mappô, não a leva muito a sério, dizendo que o esforço individual deve superar quaisquer condições adversas inerentes à época8. Vejamos como exemplo o texto referente ao Mappô de seu tratado Hizô-Hôyaku (A Chave Preciosa do Depósito do Tesouro):
Essa visão otimista será conservada pelos sucessores de Kûkai na escola Shingon, mesmo na época de plena aceitação da idéia de Mappô, como veremos. Passemos agora ao estudo da idéia de Mappô na obra de Saichô, que serviu de ponto de partida das reflexões dos pensadores dos séculos posteriores. Ao contrário da obra de Kûkai, a de Saichô reflete uma visão pessimista do mundo e um certo temor em relação à aproximação do Mappô. Já percebemos isso em seu Hatsuganmon (Texto da Formulação do Voto), escrito por volta dos 20 anos de idade:
Em outros textos, Saichô menciona a doutrina do Mappô e considera-se vivendo cerca de 250 anos antes do advento do mesmo. Via no Sûtra do Lótus da Boa Lei a doutrina adequada para os tempos de crise e considerava o Mappô como a época de amadurecimento do japonês para a aceitação da profunda essência do Mahâyâna, contida nesse texto. Seus esforços no sentido de criar um grande centro de formação de monges no Monte Hiei e em organizar um rigoroso currículo para o mesmo mostram o empenho com que ele se preocupou em preparar o terreno para a futura difusão da doutrina12. Não obstante seu pessimismo, acreditava Saichô na possibilidade de difusão do Budismo em pleno Mappô, não apresentando ele, portanto, uma consciência tão radical da decadência como a encontrada nos autores posteriores13. Entretanto, o nome de Saichô é ligado a uma obra de capital importância para o desenvolvimento da teoria japonesa do Mappô, o Mappô-Tômyô-Ki (Relato da Lâmpada do Mappô), cuja autoria lhe é tradicionalmente atribuída, embora muitos estudiosos, como os Profs. Mizumaro Ishida e Kyoichi Kazue a considerem de autenticidade duvidosa. Um dos principais argumentos contra sua vinculação a Saichô está no fato dele ser totalmente ignorado durante todo o período Heiam para ser citado apenas pelos patriarcas do Budismo reformado de Kamakura: Hônen, Shinran, Eisai e Nichiren. Isso leva muitos a concluir que, sendo o tema central do texto a teoria de que os monges do Mappô, embora não obedecendo aos preceitos monásticos, são dignos de respeito devido a autênticos instrutores, o mesmo tenha sido composto pelos amidistas para justificar seu desinteresse pelas normas da vida monacal14. Não faltam, porém, os defensores da autenticidade do texto. Assim, o Prof. Ienaga Saburo, historiador, comparando o Mappô Tomyôki com outros trabalhos de Saichô e outros textos da época, conclui que não há razão nenhuma para se negar peremptoriamente que o mesmo tenho sido composto por Saichô ou pelo menos na época que lhe é atribuída – 20º ano da Era Enryaku, ou seja, 801. O mesmo autor levanta a hipótese de que esse trabalho tenha visado um objetivo essencialmente político: defender os monges contra uma série de medidas tomadas pela Corte Imperial no sentido de expurgar das comunidades budistas os religiosos ou religiosas que haviam violado os preceitos. Segundo essa hipótese, ficaria explicada a aparente contradição entre esse texto – dirigido aos letrados da Corte – que defende o abandono dos preceitos no Mappô e os demais trabalhos de Saichô – dirigidos aos monges – em que se limita a criticar a obediência às normas do Pequeno Veículo, propondo em seu lugar as do Mahâyâna15. O Prof. Enjo Inaba, do ponto de vista do especialista na doutrina da Escola Jôdo Shin, também considera insuficientes os motivos alegados para se duvidar da vinculação do Mappô Tomyôki com Saichô e não vê nenhuma contradição entre essa obra e as demais desse mestre. Considera a posição do texto em relação aos preceitos não tanto como reveladora de uma atitude política, mas principalmente como uma idéia precursora da negação dos preceitos pelos líderes amidistas, notadamente por Shinran16. Os Profs. Shugaku Yamabe e Chizen Akanuma, comentadores da obra de Shinran, também adotam posição semelhante17. Para nós, o importante não é tomar partido por uma ou outra tese, referente a autoria do texto, mas sim, constatar o valor que lhe foi atribuído pelos reformadores do Período Kamakura, principalmente por Shinran, bem como verificar de que maneira o Mappô Tomyôki justificou ou influenciou a visão da história que esses patriarcas formularam. É conveniente, pois, antes de estudar a idéia de Mappô na literatura do fim do período Heian e do período de Kamakura, examinar em suas linhas gerais o conteúdo desse controvertido texto. O Mappô Tomyôki se inicia com um preâmbulo em que são feitas considerações sobre a cooperação entre o poder profano e a autoridade religiosa sob o reinado de um soberano ideal18. Segue-se a apresentação das razões para o estudo da teoria das três épocas e da maneira com que o mesmo será feito:
Em seguida é apresentada a versão segundo a qual o Shôbô dura 500 anos e o Zôhô 1.00020, sendo depois descrita a degradação moral progressiva dos monges durante esses 1.500 anos, culminando no desaparecimento total dos preceitos no fim desse período21. Segue-se a citação do texto do Mahâsamnipâtasûtra referente aos cinco períodos de 500 anos, que é harmonizado com a teoria das três épocas:
Depois, o autor do Mappô Tomyôki procura situar o ano em que diz escrever, 20º ano da Era Enryaku (801), dentro da cronologia das três épocas. Cita duas tradições chinesas referentes à data da morte de Buda, uma que coloca esse evento 1.700 anos antes de sua época e outra,, 1.410 anos antes; adota esta última, considerando-se, pois, em fins do Zôhô23. Descreve então, o comportamento dos monges de seu tempo, caracterizado pelo desaparecimento dos preceitos.
Em seguida, explica-se como os monges do Mappô, embora não obedeçam aos preceitos, devem ser considerados mestres dignos de veneração e respeito:
Essa afirmativa é reforçada com citação do Mahâsamnipâtasûtra26. Explica-se depois que as advertências e ameaças contra os violadores dos preceitos contidos em vários Sûtras se referem apenas aos monges do Shôbô, e não aos do Zôhô e do Mappô, onde não mais existe a aceitação de preceitos27. Inúmeros textos são em seguida apresentados e discutidos como prova dessa tese, entre eles um Sûtra denominado Kengukyô (Sutra dos Sábios e dos Ignorantes) que prevê o “casamento” dos monges no Mappô:
Outro texto citado, o Daihikyô (Sutra da Grande Compaixão), não só descreve a degradação moral dos monges do Mappô, mas também estabelece uma relação entre a teoria da decadência e a salvação do nome de Buda:
Após semelhantes citações, o autor resume sua tese:
Depois, após novas considerações sobre o fato dos ensinamentos do Shôbô não mais se aplicarem ao Mappô, são citados mais alguns textos descrevendo a situação de decadência moral dessa época e lamentando a submissão do Budismo ao poder estatal e o fato dos monges aceitarem cargos públicos32. Finalmente, é lembrado mais uma vez que existe um ensinamento próprio para a era do Mappô33.
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