Ricardo Mário Gonçalves
Considerações sobre o Culto de Amida no Japão Medieval


Conclusão
A Consciência História do Amidismo


Vimos, no decorrer de nosso estudo, como se formou a tradição amidista e como nela se inseriram as preocupações com o tempo e a história, representadas pela teoria da decadência. A primeira conclusão a tirar de tudo o que foi exposto seria o fato de que, dentro do Budismo, tanto na Índia como na China e no Japão, as preocupações com o tempo e com o processo histórico que culminaram na elaboração da teoria do Mappô coincidiram com fases de crises e perturbações: a invasão dos Hunos Eftalitas na Índia, as crises chinesas que antecederam a unificação política sob os Sui e os Tang e finalmente, no caso do Japão, a transição entre o período do despotismo dos aristocratas e a primeira fase do feudalismo nipônico.

Em segundo lugar, cumpre chamar a atenção para o fato do Amidismo ter construído uma concepção de história que, embora tenha partido de reflexões de natureza profética e escatológica, culminou, com Shinran, numa reflexão que, não obstante tenha partido da experiência do momento histórico, abandona toda a dimensão metafísica para se concentrar na vida interior, ponto central das concepções do Budismo Original. A consciência de viver no Mappô se converte, para Shinran, na consciência de sua natureza de ser humano imperfeito, contingente, limitado, para quem a própria prática do bem não passa de uma falsidade, de uma ilusão incapaz de proporcionar ao homem um encontro com o Absoluto, colocado além de nossas noções relativas e imperfeitas de bem e mal. É uma tomada de consciência no primeiro instante terrível e desesperadora, mas que logo se converte na alegria da certeza da salvação através da fé dada por Amida. O Absoluto vem ao encontro do contingente e o redime, tornando-o idêntico a si mesmo. Viver no Mappô torna-se equivalente a viver na Terra Pura. A consciência do desespero e da decadência se converte na alegria da certeza absoluta da salvação através da fé.

Um assunto importante a ser estudado é o grau em que essa consciência do Mappô e da salvação tenha contribuído para a arregimentação de camponeses amidistas em numerosas rebeliões contra a autoridade feudal nos século XV e XVI.

O terceiro e último ponto a considerar seria o fato de que na obra de Shinran a consciência do Mappô se vincula a uma crítica ao sincretismo religioso, ao pensamento mágico e às práticas advinhatórias. O reconhecimento da impossibilidade do homem realizar qualquer esforço por sua própria salvação implica na negação da magia. A insistência numa fé pura como único fator de salvação implica no repúdio a qualquer compromisso de natureza sincrética. Os trabalhos do Prof. Kazuo Kasahara mostram que essa negação do sincretismo e da magia libertou os camponeses de um dos mais importantes instrumentos de dominação utilizados pelos proprietários rurais e demais autoridades, o que ajudou inclusive a criar uma atitude hostil ao Nembutsu por parte dos governantes. Resta, porém aprofundar uma série de reflexões a respeito do racional e do irracional da mentalidade japonesa. Shinran despojou a teoria do Mappô de seus aspectos proféticos e escatológicos, conferindo-lhe uma dimensão existencial. Por outro lado, pregando a impotência de quaisquer ações humanas para promover a salvação, apontando como único caminho para a mesma uma fé que é dada ao homem, Shinran invalida qualquer pretensão de modificar a realidade através de práticas mágicas. Isso equivale a afirmar que o problema religioso é exclusivamente uma questão de vivência interior e que a ação sobre a realidade só é possível através de meios naturais. Sem deixar de levar em conta que na obra de Shinran subsistem elementos irracionais, como, por exemplo, a crença em revelações através de sonhos, podemos nos interrogar até que ponto essas tendências racionalizantes da obra de Shinran possam ter penetrado na mentalidade do povo japonês durante os séculos que antecederam o processo de modernização e industrialização do Japão, ajudando a formar uma atitude favorável à absorção do racionalismo e da decadência do Ocidente. Trata-se de uma importante indagação que ainda aguarda uma resposta por parte dos especialistas.


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