Gyomay Kubose
Budismo Essencial
A Arte de Viver o Dia-a-Dia


22. Viver a Vida

Viver a vida é uma preocupação de todos nós, a mais importante das nossas preocupações. Eu me pergunto quantas pessoas estão realmente vivendo a vida. Você está vivendo ou apenas existindo? A verdadeira paz e alegria da vida está baseada em viver a vida. Ao acolhermos um novo ano, eu gostaria de lançar um olhar a este importante aspecto da vida.

No meu entender, muitas pessoas que são impacientes, nervosas, sempre se queixando, cansadas, aborrecidas e indiferentes, não estão vivendo a vida. Pelo contrário, a pessoa que está vivendo a vida é alegre, vibrante, criativa, em pleno desabrochar interior; ela percebe o significado da vida e aprecia o trabalho ao qual se dedica.

Um dia, Buda chegou a uma aldeia e viu três pedreiros trabalhando. Perguntou a um deles:

— O que você está fazendo?

— Estou assentando tijolos – foi a resposta. Buda fez a mesma pergunta ao segundo pedreiro e ele respondeu:

— Estou ganhando meu dinheiro.

Quando Buda se aproximou do terceiro homem e lhe perguntou o que estava fazendo, ele levantou os olhos para Buda e exclamou:

— Estou construindo um templo.

Seu rosto era radiante e cheio de esperança. Este homem estava vivendo.

O Rev. Gyoko Saito, do Templo Budista de Chicago, traduziu, em parceria com Joan Sweany, o livro de Kenji Miyazawa, The Elements of na Outline for the Farmer's Art (Elementos para um esboço da arte do lavrador), publicado na revista Suchness deste mês. Kenji Miyazawa realmente viveu a vida. Morava no norte do Japão, onde a vida era difícil e pobre; a fome persistia e os jovens lavradores, um a um, abandonavam a região. Miyazawa ficou, um lavrador entre os lavradores, e demonstrou, por sua própria vida, que o único modo de salvá-los (e, em decorrência, salvar a si mesmo e à humanidade) era descobrir a “arte do lavrador” como o verdadeiro sentido da vida para eles. A menos que percebessem o verdadeiro sentido de suas vidas enquanto lavradores, não poderiam viver em suas plantações. A verdadeira vida é uma arte. Todos nós quer sejamos lavradores, operários, professores ou médicos, devemos nos tornar artistas da vida. Kenji Miyazawa viveu a arte do lavrador e foi, enquanto lavrador, um artista da vida.

Somente quando a pessoa vive sua vida é que ela conhece o seu significado; e a remuneração de seu trabalho não é necessária porque o trabalho em si é a remuneração. O trabalho é a realização da própria vida; portanto, existe significado e alegria na vida independentemente das condições, do tempo e do lugar.

Todos nós precisamos viver a vida – nossa própria vida. Mas esta vida muito pessoal não é isolada e independente. A verdadeira vida é sempre uma com a vida universal, e, contudo, é ao mesmo tempo singularmente independente dela. A verdadeira vida é nunca sacrificar nem ser sacrificado. A verdadeira vida é sempre criativa e desabrocha do nosso interior. Portanto, é uma arte de viver. Uma pessoa é um artista da vida, qualquer que seja sua ocupação.

Num jardim há rosas, gladíolos, cravos, lírios e cosmos. Cada uma destas flores, isolada, é bela; porém, juntas, em harmonia, elas também embelezam todo o jardim em cada estação do ano. Algumas plantas erguem-se para os céus, outras são trepadeiras e outras rasteiras; todas têm seu lugar e cada uma é bela em seu lugar. Não existe complexo de superioridade ou complexo de inferioridade. Não existe ciúme ou inveja. A vida apenas realiza a si mesma. A vida às vezes é dura, às vezes suave. A vida apenas é. Viva-a.

As flores vermelhas têm luz vermelha, as flores amarelas têm luz amarela, as flores verdes têm luz verde e as flores brancas têm luz branca. Quando a vida é pintada sobre uma tela, torna-se um belo quadro; quando a vida é manifestada sob a forma de ritmo, torna-se uma música inspiradora; quando a vida é posta em palavras, ela é um belo poema. Tanto o capital como o trabalho são importantes na indústria; ninguém pode dizer qual deles é o mais importante. Ambos são igualmente importantes. O piano e o cesto de lixo, a sala e o banheiro – tudo é igualmente importante. O gari, o pedreiro, o médico, o industrial – todos são importantes. Todos precisam respeitar-se mutuamente. Cada um deve brilhar no lugar que ocupa e sendo aquilo que são. Cada um deve ser o melhor sem qualquer comparação. Cada um deve viver a sua vida.

Não seja impaciente; esqueça a autopiedade. Viva a vida. Seja o artista da sua própria vida. Quando vivemos a vida, não existe argumentação, não existe discussão. Existe somente a vida – viva e luminosa.


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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