Gyomay Kubose
Budismo Essencial
A Arte de Viver o Dia-a-Dia


25. O Nirvana

Perguntam-me, com freqüência, sobre o nirvana. Porém o nirvana não pode ser explicado porque ele é a própria realidade e, se eu o explicasse, ele seria um conceito e não o nirvana. Posso apenas apontá-lo.

A palavra – nirvana em sânscrito e nehan em japonês – significa literalmente “extinto” ou “apagado”; isso equivale a dizer que o ego é extinto, o eu (nossa idéia equivocada do eu) é eliminado. Mas talvez fosse melhor dizermos que o ego é transcendido. O nirvana é o estado de percepção de que este é um mundo de não-eu e não-ego. O mundo do não-ego e do não-eu é um mundo sereno e puro.

Se dizemos que o nirvana é um mundo puro, sem o ego e sem o eu, então alguém poderia imaginá-lo como um mundo imóvel e morto, apartado daquilo que consideramos a realidade da nossa vida. Mas o nirvana não está separado da nossa vida. Mas o nirvana não está separado da nossa vida nem do mundo. O nirvana é simultaneamente dinâmico e estático. Isso talvez pareça contraditório, mas o nirvana é o mundo onde a contradição não é contraditória. A vida real é estática e, ao mesmo tempo, dinâmica.

A chama de uma vela é estática quando não há vento para agitá-la; mas, dentro daquela chama aparentemente imóvel, estão ocorrendo os fenômenos notáveis da combustão. O corredor na linha de largada, naquele exato instante em que o juiz diz, “Em suas posições; preparar...”, está quieto e imóvel, mas pronto para a arrancada dos cem metros rasos. A corrida toda está nele; ele está alerta e dinâmico, embora este dinamismo apareça sob a forma estática. Quanto mais rápido gira um pião, mais estático parece aos nossos olhos. À medida que vai girando mais devagar, ele se torna mais ativo; isto é, ele começa a oscilar e vacilar, até finalmente parar por completo. Vemos, às vezes, as crianças brincando em silêncio, sem perturbar ninguém; isso porque elas estão profundamente ocupadas e absortas em seu brinquedo. Estes exemplos mostram que a serena quietude do nirvana não é uma quietude morta, mas sim uma quietude totalmente viva – ao mesmo tempo estática e dinâmica.

O nirvana é explicado de uma forma bastante negativa pelos estudiosos ocidentais ou pelos não budistas, pois eles não compreendem o nirvana em sua totalidade. Vêem apenas seu lado estático ou negativo. O homem moderno quer ver o lado dinâmico da vida. Ele pensa que as coisas dinâmicas, ativas, progressivas e positivas têm modernidade. Mas a vida também tem seu outro lado, seu outro aspecto. O que seria a vida se ela não incluísse a morte? A vida é tanto a vida quanto a morte. A destruição torna possível o progresso. Só existe a atividade porque existe passividade. Atividade e passividade são relativas e complementares. Mas a nossa mente dualística sempre forma conceitos que tentam dicotomizar coisas que na realidade não estão separadas umas das outras. Os conceitos não são coisas reais; um mundo conceitual é um mundo morto. As realidades vivas perdem sua vida quando postas em conceitos. O nirvana, o mundo da verdadeira realidade, é um mundo vivo que transcende os mundos relativos do estático ou dinâmico, do bom ou mau, da vida e da morte.

Nós, pessoas modernas, tornamo-nos vítimas de inúmeros conceitos. Tentamos compreender as coisas conceitualmente. Se uma pessoa tenta compreender a vida ou o amor conceitualmente, ela nunca compreenderá a vida ou o amor. Do mesmo modo, se a pessoa forma conceitos de céu e inferno, de bom e mau, de Deus e Diabo, estes se tornam mortos, coisas estereotipadas e perdem seu verdadeiro significado. O nirvana não é um conceito; é a realidade. É a própria vida.

Às vezes as pessoas falam em “alcançar o nirvana”. Mas o nirvana não é alguma coisa a ser alcançada. A totalidade do mundo é o nirvana ou está no nirvana. Talvez seja mais correto dizer que nos encontramos no nirvana, em vez de dizer que alcançamos o nirvana. Diz Shinran no Jodo Wasan , “Tathagata é nirvana; nirvana é a natureza búdica” e “A grande e verdadeira mente é a natureza búdica; a natureza búdica é tathagata”. No Shoshige , ele diz, “Samsara é nirvana”.

Tathagata significa o mundo “das coisas tais como elas são”. Samsara significa “a vida do dia-a-dia”. O mundo inteiro é nirvana e nirvana é a vida do dia-a-dia. O mundo, o mundo do dia-a-dia, parece caótico ou pacífico, feio ou belo, dependendo da nossa mente. Fazemos o mundo do jeito que desejamos fazê-lo em nossa mente. Uma mente feia e nervosa não consegue ver beleza e paz no mundo. O nosso mundo é o espelho da própria mente. É como ver o mundo através de lentes coloridas. Quando tiramos as lentes coloridas, veremos o mundo e as coisas tais como eles realmente são. Ver as coisas tais como elas são é a chave para o nirvana. O nirvana é o conteúdo da iluminação. Quando a pessoa torna-se iluminada, o mundo do nirvana se abre.


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