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Gyomay
Kubose
O primeiro ensinamento de Buda foi “conhece-te a ti mesmo”. Ele ensinou que a coisa mais importante para a solução dos nossos problemas é, em primeiro lugar, o autoconhecimento. Esta idéia não foi criada por Buda. Um filósofo grego, Sócrates, ensinou a mesma coisa. Uma outra maneira de expressá-la é, parece-me, “conhecer a mim mesmo é conhecer minhas limitações”. Não quero dizer “limitações” no sentido comum. Não se trata de nos limitarmos. Talvez “limitação” não seja a palavra adequada. Mas, por “conhecer nossas próprias limitações” quero dizer saber o que somos. Acho que os problemas psicológicos, as dificuldades neuróticas, são o resultado do fracasso em percebermos nossas próprias limitações. Talvez “adequação” ou “posição” sejam palavras melhores. A limitação de um indivíduo dentro de uma sociedade ou família é a posição dele. Representa o que ele pode fazer, o que ele deve fazer, em sua capacidade mais adequada. A limitação não limita os atos, as palavras ou os pensamentos desse indivíduo. Conhecer as próprias limitações é saber o que somos e viver de acordo com este conhecimento. As limitações não são uma coisa fixa, determinada. De modo especial, a posição adequada na sociedade precisa variar de acordo com o contexto da situação e aquilo que você estiver fazendo. Vejamos, por exemplo, as mulheres. A mulher precisa saber que ela é uma mulher. Está claro que não faço distinção entre homens e mulheres numa posição social. No entanto, a mulher, por natureza, tem sua própria posição enquanto mulher, e acho que ela deve conhecê-la. A única limitação da rosa é não poder seu um lírio. Se a rosa não se importar com isso não há limitação. Do mesmo modo, a posição dos filhos em relação aos pais – existe um lugar definido – a posição do professor, a posição do aluno; a de marido e mulher – o marido tem sua posição a ocupar, assim como a esposa tem a sua. Não me refiro ao sentido de limitação enquanto conhecimento dos próprios limites (“Bem, eu não consigo fazer isso, não sou bom o suficiente”), mas sim ao sentido de ser livre para exercer suas plenas capacidades e desenvolver ao máximo suas aptidões. Para ser capaz de fazer isso, para ser livre, a pessoa deve primeiro conhecer suas limitações. Você pode ver que este sentido de limitação é bem mais amplo que o sentido comum da palavra. Mas, mesmo no sentido comum: uma pessoa está frustrada porque acha que merece um salário mais alto por seu trabalho; porém, aos olhos do empregador, ela não merece aumento, pois só possui capacidade para desempenhar certas tarefas. Às vezes, esperamos mais dinheiro por menos trabalho. Ou tentamos fazer uma coisa que está além da nossa capacidade. Ou alguém espera de nós mais do que podemos fazer. Estas expectativas injustificadas, nossas ou dos outros, são a causa de muitas das doenças modernas. Certa vez, a esposa de um famoso regente russo lhe perguntou: “Querido, você não acha que eu posso ser a melhor bailarina do Balé Imperial Russo?” E ele respondeu de imediato: “Não é isso que importa. Numa boa companhia de dança, o melhor papel é tão importante quanto o da primeira bailarina”. Quando alguém quer ser o melhor em um grupo (em vez de ser o melhor que é possível ser) e esquece sua própria capacidade, o resultado é sentir-se frustrado e culpar os outros: “Eles não me dão uma chance” ou “Tem alguma coisa errada com o chefe”. Quando deixamos de compreender nossas limitações. Às vezes subestimamos nossa capacidade e, outras vezes, a superestimamos, e, em ambos os casos, estamos sendo irrealistas a respeito de nossas expectativas. Isto, é claro, está relacionado com o ensino do Caminho do Meio. Uma criança deve conhecer suas limitações de criança; este é um ponto muito importante. Não para limitar a si mesma, mas para ser livre e fazer tudo aquilo de que é capaz. Uma pessoa deve saber o que ela é, qual é sua posição, qual é sua capacidade. O ensinamento de Buda foi este: conhecer nossa posição em um dado momento, lugar e ocasião. Muitas vezes, deixamos de ver nossas próprias limitações; esperamos elogios e, se eles não vêm, sentimo-nos miseráveis. Ou então a pessoa tem real capacidade, mas pensa: “Ah, não consigo fazer isso”. O complexo de inferioridade instala-se dentro dela; há perplexidade em sua vida. Por isso, o ensinamento de Buda, “Primeiro, conhece-te a ti mesmo”, é o mais importante ensinamento na vida moderna. Muitos de nós, é claro, acreditam que somos todos bons, que todos cumprem sua parte. Outro dia, ouvi uma história muito interessante: havia uma certa dona de casa bastante capaz de cuidar de sua casa, mantendo a cozinha em ordem e o quintal sempre limpo; ela também era boa jardineira e assim por diante. Tinha muito orgulho de si mesma por ser tão capaz de manter o lar em ordem. Certa tarde, sua amiga Mary foi visitá-la e, enquanto estavam sentadas na cozinha conversando, ela disse: — Mary, está vendo a casa da minha vizinha? Como ela é desleixada! Olhe só as roupas no varal. Os lençóis estão tão sujos e manchados que nem parece que foram lavados. O jardim não recebe nenhuma atenção e... — Bem, Margaret – interrompeu a amiga – talvez seja verdade, mas eu acho que se você limpasse as vidraças da tua cozinha, os lençóis e o jardim da vizinha pareceriam bem mais limpos. Temos o mesmo tipo de olhar crítico sobre as outras pessoas. Pensamos que somos bons e agimos bem, e os outros não. Na verdade, quando olhamos para nós mesmos, não temos de que nos orgulhar em comparação com os outros. E esta é uma outra antiga história contada no Japão, sobre um homem que, muito consciencioso e religioso, freqüentava o templo e sobre seu filho que tinha diploma universitário e conhecia muito bem a ciência moderna. Para o rapaz, ir ao templo era um absurdo. Ele criticava o pai por esse hábito e vivia lhe perguntando por que fazia isso, principalmente quando o ministro não parecia praticar o que pregava. O filho insistia com o pai para que não fosse mais ao templo. O pai respondia: — Meu filho, você não compreende o que é a vida espiritual. Mas não conseguia convencer o filho, até que lhe ocorreu uma nova idéia, fazer um acordo, e ele disse ao filho: — Eu deixarei de ir ao templo se você prometer fazer uma coisa para mim: durante as duas próximas semanas, eu quero que você anote num caderno tudo o que falar, tudo o que pensar e tudo o que fizer. No fim das duas semanas, mostre-me o caderno. Se você puder escrever tudo isso com honestidade e sinceridade durante duas semanas e se me mostrar o caderno, eu deixarei de ir ao templo. — Ah, meu pai, é a coisa mais fácil do mundo! Vou fazer exatamente o que o senhor pediu. O filho manteve o diário, honesta e sinceramente, escrevendo todas as coisas que o pai mencionar. Mas, ao cabo de uma semana, relendo suas próprias palavras, percebeu que sentia vergonha de mostrá-las aos outros. Toda a sua vida íntima estava ali exposta. Cheio de vergonha, foi ao pai e disse: — Pai, vou parar de escrever o diário. Não posso continuar. As coisas que eu escrevi, tenho vergonha de mostrar aos outros... até mesmo para o senhor. Sabe, pai, sempre pensei que eu era bom, que fazia tudo direito, mas quando comecei a ser franco e honesto comigo mesmo, escrevendo as coisas que fazia na intimidade e as coisas que pensava, descobri que não posso mostrar o diário nem para o senhor, nem para ninguém mais. — Bem, você vê, meu filho, todos nós pensamos que somos bons e não temos nada de que nos envergonhar. Mas, se nos desnudarmos e olharmos para dentro de nós mesmos, veremos que somos muito egoístas e fazemos uma porção de coisas que não queremos que os outros venham a saber. É exatamente por isso que eu vou ao templo. Eu vou ao templo a fim de olhar para dentro de mim mesmo, em busca daquela verdadeira paz interior que surge da introspecção, e agora eu, pela primeira vez, sou capaz de perdoar ou compreender os defeitos e falhas dos outros. É muito fácil acusar os outros, censurar os outros, mas quando examinamos a nós mesmos, vemos que somos iguais a eles....e, assim como eles, não somos anjos. Foi então que o rapaz percebeu por que seu pai ia ao templo; não era para mostrar religiosidade ou ouvir sermões, mas sim para buscar sua própria introspecção e criar sua paz interior. Quando olhamos o exterior e criticamos os outros, ou quando os imitamos sem conhecer nossas próprias limitações, sempre temos problemas; não existe paz interior em nós. Acho que este é o propósito de se freqüentar um templo. Ir ao templo não é aprender o que Buda disse ou o que está escrito nos livros, mas ser capaz de ver aquilo que somos e viver nossa vida de acordo com suas próprias limitações. Estas limitações incluem a mais plena capacidade, aptidão ou potencialidade. Vamos ao templo ouvir palestras... por que? Não para adquirir conhecimentos, mas sim para aprofundar nossa introspecção e ampliar nosso campo de compreensão. Se compreendemos a nós mesmos, não temos direito de censurar os outros – nós os compreendemos. É só através da compreensão que podemos ter paz e harmonia. Foi este tipo de abordagem que Buda ensinou. Uma abordagem que elimina a agonia mental, a raiva, a obstinação e a avidez. Todos estes estados podem ser eliminados ou transcendidos pela compreensão de nós mesmos. É isto o que quero dizer com conhecermos nossas próprias limitações ou nossa posição.
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