|
Gyomay
Kubose
O eu – o self , o si-mesmo – é extremamente enfatizado na vida moderna. O eu é muito importante, porque é uma unidade da nossa estrutura social e, portanto, a base de todas as coisas. Assim, falamos de auto-educação (self-education), autodesenvolvimento (self- development), self-service e outras expressões do gênero. No entanto, quando paramos para pensar no que é o eu, temos uma imagem diferente dele. Não existe o eu, na verdade, sem o outro. O eu é uma coisa relativa, e o verdadeiro eu existe no estado de não-eu. O que é o eu? O poeta Walt Whitman disse certa vez que o homem moderno pensa que o eu é alguma coisa que fica no espaço entre os sapatos e o chapéu. Esta idéia está longe da verdade. Buda Disse “A essência de todas as coisas á o não-eu”. Aquilo que comumente pensamos ser o eu é algo temporal e ilusório. A maioria das pessoas acha que “eu” é a coisa mais importante deste mundo: “Eu penso que...”, “Eu fiz isso...”, “Eu tenho o direito de...”, etc. Porém, o “eu” é o somatório de todas as outras pessoas e coisas. Meu corpo foi-me dado por meus pais; todos os alimentos que como para manter meu crescimento e minha vida são produzidos e fornecidos pelos outros; todas as roupas que visto para proteger meu corpo são feitas por outras pessoas; meu teto e todos os meus outros pertences não foram feitos por mim. A língua que falo, eu aprendi. O modo como penso, eu aprendi. Meus pais, professores e todas as outras pessoas me ensinaram. Portanto, tudo o que sou é o somatório de outros. Não existe um “eu” separado dos outros. Buda não considerava o “eu” como uma entidade eterna, independente e categórica – como é o caso do atman no hinduísmo e da alma no cristianismo. A vida é um contínuo vir-a-ser. Ela muda continuamente. O “eu” tem muitos estados, está sempre mudando. Eu sou pai por causa dos meus filhos; eu sou marido por causa da minha esposa; eu sou professor por causa dos meus alunos; eu sou velho porque sou comparado aos jovens. Tudo tem existência relativa. A essência ou natureza da vida é o não-eu. Só quando a pessoa está no estado de não-eu é que existe verdadeira paz, beleza e felicidade. No estado de não-eu está o verdadeiro eu. Quando a mãe faz algo por seu filho, ela o faz sem reservas. Mesmo que sua própria vida esteja em perigo, ela faz tudo pelo filho. Diz-se que a mãe “se sacrifica” pelo filho, mas não se trata de sacrifício. Trata-se, isso sim, de uma realização da vida dela, porque a mãe e o filho são um. A mulher é frágil, mas a mãe é forte...porque uma mãe torna-se altruísta quando tem um filho. Quando uma pessoa ama de verdade, ela dará sua vida pelo ser amado, porque o verdadeiro amante torna-se altruísta. A felicidade dele é a felicidade dela, o sofrimento dele é o sofrimento dela. Quando os que se amam formam uma só unidade, existe uma grande beleza, felicidade e paz. É uma grande alegria dar a própria vida por alguém que realmente se ama ou respeita. E isso só é possível porque o estado de não-eu tem esse poder. Os pais não deveriam subestimar o poder do amor; quando ama, sua filha frágil e meiga tem o poder de virar o mundo de cabeça para baixo. O trabalho feito com amor é outra área em que podemos observar a verdade do estado de não-eu. A pessoa, trabalhando, esquece de si mesma no trabalho, esquece as horas, esquece de comer e tudo o mais. Ela e seu trabalho são uma só coisa. Ela põe toda sua vida nele. Trabalhar é uma alegria para ela. Todas as pessoas dedicadas são altruístas em seu trabalho. Um verdadeiro líder religioso dedica altruisticamente sua vida porque ele e seus seguidores são uma só coisa. O cientista dá sua vida à ciência porque ele e a ciência são uma só coisa. O estado de não-eu é tão belo, e tão forte! Ao praticar tiro com arco ou jogar golfe, se a pessoa é egoísta ou consciente de si mesma nunca conseguirá dar o melhor de si. Mas se, depois de passar por uma boa disciplina ou treinamento no esporte, a pessoa for altruísta em seu propósito, seu esforço “sem esforço” poderá produzir resultados bem melhores do que o esforço consciente e a determinação objetiva. As flores desabrocham sem pensar em si mesmas, o vento sopra sem pensar em si mesmo, as águas correm sem pensar em si mesmas e as crianças não pensam em si mesmas nas suas palavras e ações. Por isso são belos. Buda ensinou o estado de não-eu como um de seus três ensinamentos básicos. É o nosso equivocado ego em estado egoísta que causa todos os problemas e sofrimentos humanos. Não percebemos que só podemos viver e desfrutar a vida por causa das outras pessoas e coisas. Quem compreender realmente essa verdade, não deixará de tornar-se humilde e apreciar os outros. O budismo é o caminho do estado de não-eu.
|
||