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Revª. Leninha Cipriani
É um conjunto de Ensinamentos, que estuda a nossa vida aqui e agora, não impondo Dogmas de Fé. Talvez, por possuir tais características, por não prometer uma Salvação após a morte, por não prometer às pessoas, resolver seus problemas humanos, muitas vezes, aqui no Ocidente ele não é considerado Religião. Com os Ensinamentos Budistas a pessoa é levada a um processo de entendimento daquilo que é inteligível dentro das Leis Naturais, mas deixando claro que dentro dessas mesmas leis, há coisas que não podemos entender (como a Real Origem do Universo) e que não adianta no momento presente apenas ficar no âmbito das suposições, porque há muitos outros problemas a resolver, de cujas resoluções chegaremos à Paz. Como os Ensinamentos Budistas nos religam ao todo Universal, às forças imensuráveis da Natureza, e nos levam de volta às nossas origens, no Oriente ele é considerado uma Religião. Todo esse processo de “Religação” com as Forças Cósmicas Imensuráveis, que chamaríamos de Autoconhecimento, foi experenciado há 2500 anos atrás por um Príncipe Indiano, Sidarta Gautama (o Buda Sakyamuni) que, historicamente é considerado o Fundador do Budismo. Um sábio daquela época, profetizara que ele seria um Asceta, que salvaria a Humanidade dos Sofrimentos. E assim, aos 29 anos de idade, após casar e ter tido um filho único, Rahula, ele abandona seu Palácio (onde hoje é o Nepal) e passa a buscar a Paz, a Verdade. O GRANDE OBJETIVO do Budismo é eliminar os Sofrimentos a partir de um Despertar, de uma Conscientização das Verdades, implícitas no nosso dia-a-dia, Despertar este baseado no reconhecimento das Leis Naturais, que se fazem presentes no nosso dia-a-dia e não podem ser negadas. A partir da Conscientização e Aceitação da Execução destas Leis, podemos evitar que a nossa mente sofra, visto que, o Sofrimento é gerado pela nossa vontade de querer mudá-las. Eliminada esta vontade, elimina-se o Sofrimento, surge uma Transformação da Mente, Surge a Paz. E foi assim, que aos 35 anos, o Buda Sakyamuni compreendeu, que a solução para os Sofrimentos, poderia ser alcançada, na vida presente, Aqui e Agora, à partir desta Transformação da Mente, ISTO É, à partir da aceitação do que não podia ser mudado, à partir da aceitação do Absoluto. Compreendeu também que TODAS as pessoas, sem exceção, poderiam conseguir essa Paz, essa Transformação. E ele passou a trabalhar com este Objetivo. Começou então a difundir aquilo que havia compreendido e que resume-se em 3 preceitos:
Foi profundamente absorvido nos arredores do Nepal e em direção à China. Estes ensinamentos que então passaram a ser chamados de Budismo, adquiriram diversas apresentações, dadas as fusões com as culturas locais onde difundiram-se. Umas destas apresentações é o AMIDISMO, corrente na qual estamos mergulhados e que tem sua denominação a partir da palavra A-MIDA (A = sem / negação, e Mida = Medida). Daqui por diante, significa que, nos nossos estudos, estamos baseados em algo imensurável, que ressalte-se : não é uma Entidade, que atua como uma Força Suprema permeando as Leis Naturais, e que em sua TOTALIDADE é inconcebível pela mente humana. É Algo Absoluto, Imutável, presente nas nossas vidas, mesmo independente das nossas vontades. É portanto, dentro deste contexto do Amidismo, que vamos encontrar a nossa Escola: A VERDADEIRA ESCOLA DA TERRA PURA (Jôdo Shinshû), na qual o principal instrumento para alcançar a Paz é a FÉ. Não uma Fé cega, inconteste, imposta por dogmas, mas uma Fé que podemos chamar de Racional, porque é fruto de um trabalho da nossa Mente: é uma crença, uma filosofia, consciente de algo que se realiza, porque existem Leis (as Leis Naturais), que assim o determinam, e não haverá ninguém com forças suficientes para mudar esse contexto. E se for tentada uma mudança apenas virá sofrimento. Ao contrário, havendo aceitação surgirá a paz. E é essa Paz que no Budismo chamamos SALVAÇÃO, ou seja; vivendo à partir da conscientização e aceitação das Leis Naturais implícitas no nosso dia a dia, VAMOS SALVAR A NOSSA VIDA DOS SOFRIMENTOS IMPOSTOS PELA IGNORÂNCIA DESTES PRINCÍPIOS. A Salvação é portanto, a Paz adquirida pela Fé na execução dessas Leis Imutáveis. É um processo Racional que conduz o ser humano a uma entrega a este Imutável, este Absoluto, confiante de que o mesmo far-se-á cumprir independente da vontade de qualquer ser vivente. Este ato de entrega do Eu (ao Absoluto) significa a aceitação das Leis Naturais, sem contestação, o que determina uma abertura da Mente (rompimento de suas limitações: preconceitos, discriminações) para receber a sabedoria de Tathagata (que é como chamamos o Absoluto no Jôdo Shinshû). Este ato, no Jôdo Shinshû (nossa Escola) representa-se pela Recitação do Nembutsu, que tem no seu significado o conteúdo acima exposto o que passaremos a chamar: A DOUTRINA DO NEMBUTSU. Para estudar esta Doutrina faremos UMA interpretação do Tannishô.
É um Tratado Budista sobre a Fé, exposta no livro que tentaremos interpretar, Tratado este que tem muita aceitação no mundo moderno, porque induz a uma atitude racional (muito característica da atualidade) para a aquisição dessa Fé. O Tannishô se divide em 2 partes: A 1a parte é composta de 10 capítulos, que trazem um pouco da vida pessoal dos Mestres Hônen e Shinran. O mestre Shinran faz então diversas considerações a respeito da Salvação (Salvação no nosso trabalho, significará, como já foi dito: o encontro da Paz), através da Fé no Voto Original de Amida. Esta 1a parte, é escrita com um interessante método de Escolhas, entre as várias opções formando uma cadeia de pensamentos, onde, cada opção dirige à outra, isto é, vão sendo descartadas algumas e aparecendo outras, até que chega-se à Prática do Nembutsu. Melhor falando: sugere-se um Método Lógico de opções. E assim veremos, que parte-se do pré-suposto, que o leitor já está dentro do Budismo, e por isso está buscando o Tannishô. É então oferecida uma escolha entre 2 Caminhos: O Caminho do Portal Sagrado (Vida Monástica conhecida como Budismo Hinayana ou do Auto Poder). O Caminho do Portal da Terra Pura (Budismo acessível a todos, onde vive-se uma vida comum, conhecida também como Budismo Mahayana ou do Outro Poder ). Para seguir a exposição do livro é escolhida a opção B, e é aqui que se encontra a nossa Escola Jôdo Shinshû. São, portanto, os Conceitos da Terra Pura que o Tannishô estuda. A 2a parte do Tannishô vai estudar em 8 capítulos, o movimento surgido após a morte do Mestre Shinran, quando alguns de seus seguidores, no Leste do Japão, deturpando o pensamento original do mestre, divulgaram heresias. Surge então dentre os discípulos, o autor do Tannishô, Yui-En que nestes 8 capítulos esclarece os pontos duvidosos da Doutrina do Mestre, lamentando o surgimento dessas heresias, que confundiam a Doutrina do Nembutsu. E, “Não obstante as dificuldades de interpretação do texto escrito numa Simbologia diferente da do homem Ocidental, o Tannishô é indiscutivelmente, uma das jóias da Literatura Religiosa da Humanidade. Nele encontramos uma atitude sincera e implacável de autocrítica, e uma confissão de uma confiança inabalável, na possibilidade do homem se realizar plenamente, através do amor e da renúncia total ao egoísmo, que certamente calarão fundo em todos os corações.”1 Vemos então, que o Tannishô escolheu o Portal da Terra Pura ao Portal Sagrado. E são os Conceitos do Portal da Terra Pura que serão estudados na referida Obra. A razão desta escolha, é a tomada de Consciência, de que estamos vivendo uma época de decadência espiritual, de corrupções, na qual o homem está com as suas faculdades embotadas, tornando-se muito difícil para as pessoas, dedicarem-se a um caminho de muitos sacrifícios, para encontrar a Paz (como é o caminho A, ou do Portal Sagrado). O homem de hoje, é prisioneiro de um mundo doloroso, onde a sua percepção da Naturalidade está quase morta. Se porém, ele ao menos resgatar esta percepção das Leis Naturais, já estará optando pelo Portal da Terra Pura. O mestre Hônen, após estudar os Ensinamentos do Patriarca Chinês Tao Chao, encontrou as sementes dos Ensinamentos do Portal da Terra Pura, na Experiência de Iluminação do Buda Sakyamuni (quando este percebeu, que não adiantava a vida ascética que estava tendo, para encontrar a Paz, pois tudo estava interligado pelas Leis, e o importante seria, ajudar os seres humanos a entenderem isto, e a Paz seria encontrada). Quando Hônen entendeu isto, começou um movimento de Reforma dentro do Budismo Japonês, pregando que o Portal da Terra Pura era o caminho mais fácil para chegar à Paz. Houve porém uma grande pressão por parte das Escolas Vigentes, e isto porque o Budismo Antigo beneficiava amplamente a linha política, o esquema governamental da época. O condensado destes Ensinamentos, encontrados no “ Senjaku Hongan Nembutsu Shu”, fez com que ele fosse considerado um dos homens mais sábios desta época. Ele conhecia todo o Budismo, e precisava com jeito, convencer a atualidade a seguir o Portal da Terra Pura. Tudo isso passou a ser rotulado de Escola Jôdo Shû, que vai ser mãe da nossa, a Escola Jôdo Shinshû, atribuída posteriormente ao seu discípulo, o Mestre Shinran. Esta era uma época de grande conturbação social e política no Japão. E, coincide com a Reforma de Lutero na Europa, e, com o Surgimento do Capitalismo. Antes desta Reforma Budista iniciada pelo Mestre Hônen, o Budismo era eclético, com duas Grandes Escolas: Tendai e Shingon, cujas doutrinas eram originárias da Índia e da China: Tudo nelas cabia, todas as alternativas, principalmente aquelas que gratificassem os interesses do Governo. É quando aparece o Mestre Hônen, contestando este Budismo Vigente, trazendo novidades, que facilitariam o modo de vida do povo: ele surge com um Budismo baseado na Fé, na certeza de que as Leis Naturais executam-se independentemente da vontade de quem quer que seja, culminando todo o processo de Fé nestas Leis, com a Recitação do Nembutsu, que é uma Reverência ao Poder Ininteligível destas Leis (o Outro Poder). Ressalte-se porém, que não foi o mestre Hônen quem inventou o Nembutsu, ele já era praticado por eruditos que haviam a ele chegado por meio de estudos. Mas como o estudo não é viável a todos, Hônen consegue introduzi-lo sem erudição, como um processo evolutivo dentro do Budismo, que é agora separado do conglomerado de crenças e práticas mágicas vigentes, presentes no Tendai e no Shingon que eram vividas pela maioria das pessoas. E assim, nasce, dentro do povo japonês, um Budismo Independente, baseado no Nembutsu. Tudo isso, que constitui a Doutrina do Nembutsu, está no texto escrito pelo Mestre Hônen. Para a Escola Jôdo Shû, que formou-se em torno dos Ensinamentos deste Mestre, há muitas subdivisões, mas, em todas elas há uma característica comum que é a Recitação do Nembutsu. Esta Recitação deve ser feita com a consciência, (com a firme convicção) de que isto representa a Fé na execução das Leis Naturais. O Mestre Shinran assimila tudo isso do Mestre Hônen, após haver estudado 20 anos com os monges ascetas, buscando a Paz. À partir desta assimilação, ele concluiu que, não conseguia atingi-la por si só, com a vida ascética. E tornando-se o principal discípulo do Mestre Hônen, percebeu que: Apesar do Estudo ser um caminho que nos leva à Fé, não é só nele que está a Salvação, mas sim na existência de um desejo puro e sincero de integração à Natureza. E foi isso que Shinran procurou difundir. E foi nas camadas sociais mais humildes, que ele encontrou grande repercussão, exatamente porque elas sofriam com a manipulação do Budismo Governamental. E é este Budismo emergente, o Budismo da Terra Pura acessível a todos, independe de erudição ou de vida ascética, que o Tannishô estuda. Veremos que ele é baseado numa Fé Racional, que refuta as magias que foram assimiladas e eram praticadas pelas Escolas Tendai e Shingon. Ele vai libertar as camadas sociais mais humildes (os camponeses) da escravidão que o Governo lhes impunha através dos Monges (manipulados para tal) que eram funcionários do Governo e traziam na sua formação, a influência do Confucionismo herdado da China, (e que mais visava o bem estar do Governo que o do povo) e, usavam artifícios de magia para dominá-las. Quando através da Doutrina do Nembutsu, os camponeses perceberam a força adormecida que traziam dentro de si, mudou o cenário político-social do Japão. A Racionalidade em relação à execução das Leis Naturais, deu-lhes a Fé que libertou-os da escravidão governamental, eliminando seus sofrimentos. E é esta Fé Racional, que estudaremos no Tannishô. Veremos que, apesar de Ininteligíveis no seu Todo, estas Leis nos proporcionam uma Fé, rotulada de Racional, porque não é imposta por dogmas, é uma Fé trabalhada que revela-se à medida que nos conscientizamos de que no nosso dia-a-dia os fatos determinam-se implacavelmente obedecendo às Leis. Para o Governo japonês então, não adiantava impor o esquema anterior, porque o povo (apesar de sem erudição), alcançara a Fé Racional, refutando o contexto governamental. É isto que estudaremos, ao fazer esta Interpretação da Obra Tannishô.
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