Shuichi Maida
Quem é Mau?
O Mau e Sua Salvação na Ótica do Budista Shin


Prefácio à Edição Brasileira

Foi nos idos de 973, quando passava um ano no Japão pesquisando o Budismo e sua História, que eu tive um primeiro encontro com a obra de Shuichi Maida. Eu residia então na cidade de Okaya, Província de Nagano. Minha presença ali como um investigador do Budismo foi amplamente divulgada pela imprensa local, o que fez com que eu fosse visitado por várias pessoas. Um dia fui procurado por uma senhora de nome Katsue Marumo que se apresentou como integrante de um círculo de um pensador budista que atuara vários anos na Província de Nagano, antes de seu falecimento ocorrido em 1967. Seu nome: Shuichi Maida. Disse-me ela que o grupo de seus discípulos havia terminado de editar suas Obras Completas e que, sabendo de minha presença em Nagano, o mesmo havia decidido me presentear com as mesmas, na expectativa de que eu divulgasse o pensamento desse Mestre no Brasil. Aceitei e agradeci a dádiva e a própria senhora Marumo se encarregou da remessa dos livros para o Brasil. Folheando superficialmente os volumes, verifiquei que tratavam basicamente de Budismo Primitivo, Zen e Shinshu. Como tais temas eram alheios às minhas preocupações no momento, os livros permaneceram adormecidos na minha estante por longos anos. Só depois de seu ingresso na Escola Jodo Shuichi vim me dar conta da extraordinária importância de Maida Shuichi como um expositor do Dharma Budista ligado a essa vertente do mesmo graças a sua vinculação como discípulo do Rev. Haya Akegarasu, um dos mais abalizados instrutores da Verdadeira Escola da Terra Pura do nosso século.

Shuichi Maida foi um expositor leigo e não-sectário do Budismo. Aluno do filósofo japonês Kitaro Nishida, que procurou expressar a experiência Zen na linguagem da filosofia idealista alemã. Herdou do mesmo seu interesse por essa vertente contemplativa do Budismo Japonês e o manejo da linguagem filosófica. Por outro lado, assimilou do Rev. Haya Akegarasu a essência da Doutrina da Salvação pelo Nembutsu do Voto Original proclamado pelo Mestre Shinran, o fundador do Budismo Shin.

Um dos pontos que torna a obra de Shuichi Maida extremamente adequada à leitura e à reflexão do ocidental interessado em budismo, é justamente o fato dele conseguir passar o Budismo Essencial pregado pelo Buda Histórico Sakyamuni e o melhor da tradição budista japonesa - o Zen e o Shin – em uma linguagem filosófica familiar a esse leitor. Precursor da Era da Globalização em que as distâncias entre Oriente e Ocidente não fazem mais sentido, Shuichi Maida aliava um profundo conhecimento das escrituras do Budismo Primitivo, do Zen e do Shin com o domínio de pensadores e literatos do Ocidente como Spinoza, Albert Schweitzer e, principalmente, Goethe. Encontramos em suas Obras Completas Transcrições de aulas em que procedia a uma releitura budista do “Fausto” Goetheano. O texto bíblico não lhe era estranho e em vários artigos entregou-se a exercícios de exegese budista de textos evangélicos e neo-testamentários.

Em boa hora o Rev. Benjamim Watanabe, em seus “anos de aprendizado” – que o leitor me perdoe esta expressão Goetheana – as terras norte-americanas descobriu o pensamento de Shuichi Maida através de “The Evil Person” – uma tradução inglesa de uma pequena amostragem de sua obra selecionada pelo próprio tradutor Nobuo Haneda e resolveu verter esse trabalho para o português permitindo assim ao leitor brasileiro entrar em contato com um dos mais ricos e profundos pensadores budistas contemporâneos.

Encarregado de cotejar o texto do Rev. Watanabe com o original japonês comecei assim por cumprir a missão que me foi confiada pela senhora Katsue Murumo, falecida em 1986. É com uma profunda comoção que, através dessas linhas, apresento ao leitor brasileiro esta primeira coletânea de textos de Shuichi Maida. Outras coletâneas se seguirão, compreendendo textos traduzidos agora diretamente do japonês que tenho usado com sucesso nos cursos de introdução ao Budismo ministrados no Instituto Budista de Estudos Missionários.

São Paulo, 1 de novembro de 1996
Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves
Pesquisador do Instituto Budista
de Estudos Missionários.


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