|
Shuichi Maida
Para a confecção deste livro, selecionei, traduzi e editei vinte ensaios de Shuichi Maida (1906-1967) que considero, por muitas razões pessoais, um dos mais importantes pensadores budistas de nossa época. Em 1969, eu estudava língua russa em uma faculdade em Tokyo. A Guerra do Vietnã estava no auge e a escola foi ocupada e paralisada pelos estudantes radicais durante um ano. Um dia estava em uma livraria e encontrei um livro sobre o Fausto de Goethe escrito em japonês. O autor era Shuichi Maida. Eu não o conhecia, mas decidi comprá-lo porque desejava saber algo sobre a obra prima do teatro alemão. Fiquei muito surpreso quando terminei de lê-lo porque encontrei nele muitos pensamentos budistas. Maida escreveu a respeito do personagem Fausto de Goethe para falar sobre Budismo. Até então, como muitos outros japoneses da minha geração, considerava o Budismo um pensamento obsoleto. Entretanto, o Budismo apresentado no livro era “moderno” e particularmente relevante para mim. Desde então comecei a estudar o Budismo. Após a leitura de outros livros de Maida, senti um forte desejo de conhecê-lo pessoalmente. Quando visitei a sua casa a esposa dele me informou que ele havia falecido há dois anos. Ela me comentou também que um grupo de ex-alunos do professor Maida estava preparando uma publicação de suas obras completas em sua homenagem. Decidi então, voluntariamente participar do grupo e do projeto de publicação que durou de 1969 até 1971. Após o término da publicação de suas obras completas, Shigeharu Watanabe, um dos companheiros de grupo e ex-aluno de Maida me perguntou sobre os meus projetos futuros.Expressei-lhe o desejo de radicar-me nos Estados Unidos da América e trabalhar na tradução dos trabalhos do professor Maida para o inglês. E ele me disse: — Bem, isto me parece uma excelente idéia. Por que você não vai para o Templo Budista de Chicago? O Rev. Gyoko Saito e o Rev. Gyomay Kubose trabalham na Comunidade Budista de Chicago e foram amigos de juventude do professor Maida. Eu lhes escreverei uma carta falando de você. Assim, ele me apresentou aos budistas de Chicago. Vim para os Estados Unidos em 1971 e desde então tenho me dedicado ao trabalho de tradução de suas obras. Shuichi Maida nasceu em 1906 na cidade de Kanazawa, Província de Ishikawa, no Japão. Seus pais foram educadores dedicados e ele um diligente estudante de ciências naturais na juventude. Quando se graduou no colégio, seus professores o viam com um futuro muito promissor. Aos dezoito anos, participou de um encontro de três dias sobre Budismo onde conheceu o Rev. Haya Akegarasu (1877-1954), um ilustre pensador do Budismo Shin. O jovem Maida foi profundamente tocado pelo Budismo e pela personalidade marcante do Rev. Akegarasu. As obras de Maida consistem em mais de dez mil páginas escritas e parecem ser reflexões sobre o pensamento do seu mestre. A partir deste primeiro encontro com o Rev. Akegarasu o jovem Maida passou a se desinteressar pelos estudos de ciências naturais e começou a ler livros sobre religião. Mais tarde ingressou na Universidade de Kyoto onde se especializou em Filosofia Ocidental sob orientação do Dr. Kitaro Nishida (1870-1945) considerado um dos grandes filósofos do Japão moderno. O Professor Nishida foi um filósofo muito conhecido internacionalmente pela sua interpretação única do pensamento budista (particularmente o Zen) a partir da perspectiva dos conceitos filosóficos ocidentais. Maida teve uma oportunidade inigualável na vida de ter estudado sob orientação de dois grandes pensadores do Japão moderno Para ele, o Mestre Akegarasu representou a tradição do Budismo Shin e o professor Nishida a tradição do Budismo Zen, ambas representando duas grandes correntes de pensamento do Budismo moderno no Japão. O trabalho do Professor Maida é fundamentado na visão de que as duas Escolas compartilham essencialmente os mesmos conceitos. Conseqüentemente a essência de suas obras é constituída de discussões e comentários sobre os pensamentos das duas escolas. Paralelamente aos estudos de Budismo, Maida estudou também textos ocidentais como a Bíblia e pensadores ocidentais como Goethe e Albert Schweitzer. Nos anos finais da Segunda Guerra Mundial, quando o Japão passava pela experiência da derrota, Maida, aos quarenta anos, trabalhava como professor de Filosofia numa faculdade em sua cidade natal. Alguns meses após o fim da guerra deixava seu trabalho na faculdade e mudava-se para a Província de Nagano onde havia lecionado anteriormente. Ele decidiu então dedicar-se integralmente aos estudos de Budismo. Seus alunos organizaram grupos de estudos e o convidavam regularmente como instrutor para participar de encontros. Ele também dedicava seu tempo a outras atividades como retiros espirituais e publicação de periódicos. Ele continuou seus estudos e trabalhos de propagação do Budismo por vinte anos até sua morte em 1967. Maida sempre manteve a condição de leigo durante toda sua vida; ele não teve nenhuma ordenação monástica nem ligação oficial com qualquer organização budista sectária. Será importante uma breve exposição sobre o Budismo para compreender o pensamento básico Shin Budista do Professor Maida. Segundo ele, a fase inicial que precede o encontro com o Budismo é chamada de: Budismo:
As seqüências acima poderão ser melhor descritas através de um famoso provérbio japonês: A pequena rã que vive num pequeno poço, desconhece o imenso oceano. A expressão “pequena rã que vive num pequeno poço” é citada popularmente no Japão para descrever pessoas que possuem perspectivas estreitas e limitadas da vida. Agora imaginemos um habitáculo e no seu interior uma pequenina rã rodeada por um imenso oceano. Uma vez que ela nunca saiu do seu lugar, desconhece totalmente a existência de um imenso oceano ao seu redor. No entanto poderia ela saber que se encontra num pequeno poço? Saberia ela que o poço é pequeno e estreito? Eu diria que “não. A sua ignorância sobre este fato possui uma dupla natureza; ela desconhece não somente a existência de um imenso oceano ao seu redor mas também a própria natureza do mundo onde vive. Este é o significado da Dupla Ignorância. Como poderia ela saber que habita um mundo pequeno e limitado? Ela teria que sair do poço e vê-lo pelo lado de fora. Suponhamos que um dia um pássaro enorme sobrevoar ao redor do poço e encontre a pequena rã e diz: — Olá, companheira, que pequeno e estreito é o lugar onde estás! Imagino que não sabes que há um imenso oceano rodeando tua casa? A reação imediata da rã: — Que estás dizendo? Um imenso oceano? Deves estar louco, pássaro estúpido! Muito pelo contrário, acho que este mundo é muito agradável e satisfatório para mim. Não me perturbes dizendo essas tolices e desapareça logo da minha frente! O pássaro, ao ver a rã contrariada com o seu comentário, decide ir-se para longe. Com o passar do tempo, a rã começa a refletir sobre os comentários do pássaro naquele dia. Em outros momentos de sua vida, ouve o bater das ondas do mar nas paredes do poço. Gradualmente começa a desconfiar que realmente deve existir algo ao redor de seu pequeno poço e murmura: — É bem possível que a estória daquele pássaro estúpido tenha algum fundamento. Pode ser que eu esteja equivocado. Pode ser que realmente exista algo ao redor deste lugar. Assim, num outro dia quando o pássaro sobrevoa casualmente o pequeno poço, ela o convida para perto dela e diz: — Olá! Como estás? Desculpa-me pelo que te disse naquele dia. Sinto que aquele comentário que fizeste naquele dia começou fazer sentido para mim. Desculpa-me pelo que fiz. Agora, que tal me levar para um passeio e mostrar-me este enorme oceano de que me tanto falaste? O pássaro, ao ouvir o pedido decide atendê-la e a leva nas suas costas para um passeio pelo ar. Quando alcançaram uma certa altura a pequena rã olhou para trás e ficou impressionada ao ver a própria casa e exclamou alto: — Céus! Que pequeno e estreito é meu lugar! Como é enorme e infinito o oceano! Vamos agora examinar o que aconteceu com a pequena rã neste instante. A rã descobriu a natureza minúscula do seu mundo e a imensidade do oceano ao seu redor. As descobertas foram fatos simultâneos e totalmente inseparáveis um do outro. Exatamente como a sua ignorância era constituída de dois sentidos, também assim foi o seu despertar. É importante assinalar neste exemplo que o Duplo Despertar da pequena rã não transformará o poço num lugar maior ou mais significativo que antes. O seu lugar sempre continuará sendo aquele poço estreito e pequeno. O que se transformou radicalmente foi a sua perspectiva de vida. Suponhamos também que ela ficasse tão fascinada pela infinitude do oceano que tentasse imergir-se nele. Provavelmente morreria instantaneamente. O poço pequeno e estreito será sempre o seu lugar, não importando o quanto pequeno e limitado possa ser. Diz-se no Budismo que a natureza de um ser humano, antes do primeiro contato com o Budismo, é exatamente como esta pequena rã que habita um pequeno poço. Conhecer a verdadeira natureza do próprio eu (simbolizado pelo poço) é uma das tarefas mais difíceis da vida porque o ser humano, similarmente àquela pequenina rã, também tende a valorizar demasiadamente o próprio eu de uma maneira tão profunda e cega que fica impossível visualizá-lo através de uma outra perspectiva. O caminho do Budismo somente se abrirá quando existir este processo de auto interrogação ou conhecimento do próprio eu. A tarefa de um mestre budista é propor aos seus seguidores o caminho do despertar do eu e o conhecimento do Dharma como fez o pássaro com a pequenina rã. A essência do Budismo consiste nesse contínuo processo de autoconhecimento ou de exame de si próprio. Nesse processo passa-se a conhecer a verdadeira natureza das duas coisas: o próprio eu e o Dharma (Verdade Universal). A pequena rã compreendeu a natureza de seu poço bem como a natureza imensurável do oceano ao seu redor. O auto questionamento deve ser aquele caminho que conduz o ser humano à descoberta simultânea das fronteiras do próprio eu e do contato com a infinitude do Dharma. Quando se passa a examinar profundamente o próprio eu através da sabedoria do Dharma, descobrem-se as verdades da vida bem expressas nas frases emocionadas da pequena rã: Como é pequeno o meu mundo! Como é grande o Dharma! No Budismo esta é a experiência chamada Despertar, ou Budato que é precisamente o objetivo dos ensinamentos budistas. Este despertar foi vivenciado pelo Buda Sakyamuni, fundador do Budismo. No início de seu caminho, Sakyamuni pensava que o seu eu (atman) era algo permanente e substancial. Mas gradualmente começou a questionar essa idéia. Em suas meditações sob a árvore Boddhi iniciou o processo de interrogar a própria mente e o corpo para verificar se o seu eu era algo permanente e substancial. Concluiu que todas as coisas existentes neste mundo são impermanentes, movendo-se, transformando-se e fluindo constantemente e que nada neste mundo é permanente. Este processo o levou ao despertar aos trinta e cinco anos. Finalmente compreendeu que o eu que antes ele pensava ser permanente e substancial, na verdade é vazio e sem nenhuma substância. Somente o Dharma, a verdade da impermanência, é absolutamente real. Mais tarde quando declarou que sua vida já chegava ao fim e que todo trabalho necessário para se fazer já estava realizado, estava referindo-se ao seu despertar, i.e., a descoberta do eu como algo impermanente, sem substância e a descoberta da realidade absoluta do Dharma. Posteriormente, Shinran Shonin (1173-1262), fundador do Budismo Shin, também passou por semelhante experiência. Ele se dedicou profundamente aos estudos e às difíceis práticas ascéticas budistas no Monte Hiei em Kyoto, centro da intelectualidade budista da época até os vinte e nove anos. Embora tivesse se dedicado avidamente aos estudos religiosos, não se sentia espiritualmente livre. Quanto mais se dedicava às práticas ascéticas mais difícil lhe parecia atingir a libertação espiritual. Ele não compreendia a causa de seu sofrimento. Mais tarde ele confessou que esteve apegado ao próprio eu e não foi capaz de compreender a sua verdadeira natureza. Na época, não conseguia visualizar a verdade contida no fato de que todos os seus esforços estavam sendo cultivados dentro do domínio de seu pequeno e estreito mundo, nos limites de sua paixão religiosa. Aos vinte e nove anos, Shinran conheceu Honen Shonin (1133-1212), fundador de Escola da Terra Pura. O encontro com o mestre Honen representou para ele o encontro com o espírito do Buda Amida, o Buda da Luz e Vida Infinita, símbolo personificado do Dharma. Ao conhecer o grande e compassivo espírito do mestre Honen finalmente compreendeu a verdadeira natureza de seus esforços em buscar a libertação espiritual. Tal foi a experiência do assim chamado Duplo Despertar de Shinran. Shinran denomina a experiência espiritual do Duplo Despertar de Shinjin (Mente Esclarecida ou Mente Confiante). Este é o mais importante termo utilizado pela Escola de Budismo Shin. O Kanji japonês Shin do termo Shinjin significa literalmente Compreender ou Confiar. Dizemos que o primeiro aspecto do Duplo Despertar é a genuína compreensão do eu e de sua absoluta ignorância. O segundo aspecto é a genuína compreensão do Dharma e a descoberta de sua absoluta grandeza. O Dharma é a verdade da impermanência, o fluxo universal da vida na qual se fundamentam e dependem todos os seres viventes uns aos outros. No Budismo Shin, o Dharma é representado pelo Buda Amida que evoca e acolhe todos os seres viventes. A genuína compreensão do Dharma é a fé genuína no Dharma ou no Buda Amida. Os dois aspectos do Duplo Despertar (Shinjin), portanto são constituídos de:
Para o mestre Shinran, aquele que compreende genuinamente o próprio eu confia ou compreende genuinamente o Dharma experimentará libertação espiritual. No Tannishô, Shinran disse: Os próprios bons conseguem renascer na Terra Pura; com muito maior razão, pois os maus o conseguirão. Nessa frase o mau (perverso) é aquele que despertou para as futilidades do próprio eu. O mau confia plenamente no Dharma e experimentará a libertação espiritual. Mas aquele que se considera bom, crê plenamente na própria capacidade de realizar tudo pelo esforço próprio e despreza ou ignora completamente a sabedoria do Dharma não experimentará a libertação espiritual. Com relação ao primeiro aspecto da palavra Shinjin, o mestre Shinran expressa o significado da natureza do eu através de conceitos como mal, perverso, ignorante tonsurado, tolo ordinário e ser repleto de maus karmas, desejos e sofrimentos. Com relação ao segundo aspecto que é força pela qual o ser humano é libertado, ele utiliza palavras como Buda Amida, Poder do Voto de Buda Amida e Poder que transcende o Eu. Estes aspectos do termo Shinjin são absolutamente inseparáveis entre eles; descrições do primeiro aspecto são inseparáveis das descrições do segundo. Shinran enfatiza a importância do Nembutsu conhecido também como Invocação do Nome de Buda Amida. A relação íntima entre o Nembutsu e o Shinjin é a mesma que existe entre o fogo e a fumaça. O Nembutsu é uma expressão oral, uma manifestação da experiência interna do Shinjin. Nembutsu consiste de seis caracteres kanji chineses: NA-UM-A-MI-DA-BUTSU. Namu (reverenciar) se refere ao primeiro aspecto do Shinjin i.e, o reconhecimento das futilidades do eu. Amida Butsu (Buda Amida) se refere ao segundo aspecto do Shinjin i.e, o pleno estado de confiança de que as futilidades do eu serão acolhidas e libertadas pelo Dharma. O Shinjin e o Nembutsu são conceitos fundamentais da Escola de Budismo Shin transmitida pelo mestre Shinran. Segundo ele, se estes dois conceitos forem realmente compreendidos e vivenciados pelo ser humano, ele não necessitará absolutamente de mais nada. O conteúdo deste livro é basicamente uma descrição destes dois aspectos da experiência do despertar transmitidos pela Escola do Budismo Shin. Eu os organizei em três grupos. O primeiro grupo trata do primeiro aspecto do despertar e particularmente da importância do exame do eu; compreender o significado da ignorância absoluta do eu. Os seis seguintes ensaios tratarão principalmente do segundo aspecto: Fé Genuína ou Compreensão Correta do Dharma. Os ensaios descrevem diferentes pensamentos de pessoas que reconhecem as futilidades do eu e vivem uma vida simples e humilde, porém com forte dinamismo e intuição. Os últimos dez ensaios tratarão novamente do primeiro aspecto do Duplo Despertar. São discussões sobre os conceitos de perverso, demoníaco, Icchantika (aquele que é decididamente incapaz de se libertar), mal e Sunyata (Vazio). Todos eles explicam como um ser humano deve buscar a compreensão de si próprio. Entre diversos conceitos mencionados pelo mestre Shinran o conceito de mal; perverso (Aku) é particularmente importante porque abriga outros conceitos similares tais como ignorante, estulto ou iludido. Os nomes dos autores citados neste livro respeitam o padrão ocidental, i.e, sobrenomes são mencionados por último. As referências entre parêntesis e notas de página têm sido adotadas no livro pelo tradutor por razões de esclarecimento ao leitor. A publicação deste pequeno livro é dedicada carinhosamente ao Rev. Gyoko Saito, Bispo da Congregação Higashi Honganji da América do Norte e ao meu amigo Shigeharu Watanabe que me apresentou à comunidade budista do Templo de Chicago. O Rev. Gyoto Saito é meu mentor espiritual. Incentivou-me constantemente a traduzir as obras de Maida para o inglês e sempre me recebeu como um membro de sua família. Shigeharu Watanabe chegou a contactar os ex-alunos do professor Maida e a coletar generosos fundos para os meus estudos quando freqüentava a Universidade de Wisconsin nos Estados Unidos. Não encontro palavras suficientes para expressar-lhes meus agradecimentos. A publicação deste livro não teria sido possível se não existissem o generoso apoio e o carinho deles. Estou também profundamente agradecido a todos que contribuíram diretamente na conclusão deste trabalho. Primeiramente desejo agradecera Steve Kaufman pela leitura cuidadosa dos meus manuscritos e pelos valiosos comentários. Meus agradecimentos para Diane Ames que melhorou imensamente a apresentação do livro através de sua habilidade editorial e Joan Sweany que editou previamente os ensaios quando foram publicados pela primeira vez nos jornais do Templo Budista de Chicago. Agradeço também a Steve Takeda que idealizou a maravilhosa capa deste livro. Finalmente, meus sinceros agradecimentos para minha esposa Tomoko pelo apoio e compreensão para com ao seu desatento e pouco prático marido, em muitos sentidos.
|
||
]