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Shuichi Maida
Há alguns anos, colegiais e universitários participaram de movimentos marxista. As pessoas costumavam dizer sobre eles o seguinte: — Parece que os garotos inteligentes estão interessados em Marxismo. Quando o Rev. Akegarasu ouvia estes comentários, contestava imediatamente: — “Como você pode dizer que são inteligentes? Na verdade são uns tolos. Aqueles que não conhecem a si próprios ou não sabem como proceder a introspecção serão sempre uns tolos. Aliás, aqueles que se denominam cientistas também são uns tolos” Assim dizia ele. Os comentários do Rev. Akegarasu se fundamentam no pensamento de que pessoas que somente vêem o mundo a partir de perspectiva da lógica objetiva são tolas, i.e., tolos são aqueles convencidos de que a única maneira de ver o mundo é através da perspectiva da lógica objetiva. Os chamados sábios são, portanto aqueles que assumem as regras de vida dos tolos. Tanto esforço por nada! O mestre Honen se auto-denominava O Tolo Honen e o mestre Shinran se identificava como um Ignorante Tonsurado. Essas denominações devem ser interpretadas como repúdio à perspectiva lógica e objetiva de compreensão da vida. Os mestres Honen e Shinran não consideravam o conhecimento do mundo exterior como assunto de importância primordial para um ser humano. Assinalaram que há uma outra perspectiva que é muito mais importante que é a perspectiva do mundo interior, do autoconhecimento, questionamento e introspecção. Eles nos ensinaram que o auto conhecimento é o conhecimento mais importante que um ser humano possa buscar na vida. A perspectiva subjetiva interna deve sempre ser aquela que um ser humano deve buscar na vida. Não é primordial acumular tantos conhecimentos externos. O que realmente se necessita saber é a verdade de si próprio, a essência do próprio ego. Poder-se-á dispensar os demais conhecimentos, porém, jamais poderemos dispensar o autoconhecimento. Algumas vezes torna-se difícil buscar os dois caminhos externo e interno simultaneamente e se for necessário uma escolha entre eles, sempre se deve dar preferência ao caminho do auto conhecimento. Devemos buscar incessantemente a compreensão da essência do próprio eua cada momento da vida e não perder tempo com conhecimentos objetivos. O eu é algo sempre novo e dinâmico que está nascendo a cada momento; é o processo criativo da vida fluindo incessantemente no interior de cada ser. É preciso conhecer a essência deste eterno renascer, que é o mundo do absoluto. O Budismo ensina esta busca espiritual que constitui o fundamento do eterno aprendizado (Virya). Se alguém considerar o conhecimento objetivo como fundamental, estará esquecendo do ponto mais importante da própria vida. Ele deve ser chamado de tolo. O mestre Rennyo (1415-1499) disse: — “Embora um estudioso de Budismo saiba de tudo sobre as oitenta mil escrituras budistas existentes, se não souber nada a respeito de vida e morte, será um grande tolo. Um budista leigo e iletrado será uma pessoa totalmente sábia se estiver plenamente desperto para a questão de vida e morte. Até mesmo o Dr. Hideki Yukawa (1907-1981), um célebre físico teórico do Japão que recebeu o Prêmio Nobel de Física é um tolo porque desconhece o conhecimento mais importante da vida. Sua mente e espírito não se voltaram para este assunto. Isto não acontece somente com os estudiosos das ciências naturais, mas também com aqueles que estão estudando ciências humanas tais como Filosofia e Religião. Eles também são tolos porque se baseiam no conhecimento lógico e objetivo da vida e se esquecem do conhecimento mais importante que é o conhecimento do eu. Enfim, não faz nenhum sentido para um budista estar comparando uma coisa com outra. O conhecimento objetivo é baseado na comparação. É muito importante transcender a perspectiva da comparação ou da relatividade. No Budismo este ato de transcender o mundo relativo é chamado de transcendência do mundo secular i.e., a experiência espiritual do despertar que resulta na libertação do ser humano; a libertação do mundo do sofrimento. O desejo de transcender o mundo relativo que no Budismo é chamado de natureza búdica reside no interior de cada ser humano. Seria uma completa tolice procurar conhecimentos objetivos ou assuntos acadêmicos que apenas servem para aprisioná-lo dentro do mundo relativo e comparativo. No Budismo a questão crucial da vida é Renascer no Mundo dos Seres Despertos (Terra Pura). O Buda Sakyamuni pregou a Parábola da Flecha Envenenada. Será relevante mencioná-la aqui porque ilustra claramente a nobre verdade de que a libertação do sofrimento é a única meta importante para qualquer ser humano. No Budismo a libertação do sofrimento se baseia na transcendência do mundo da perspectiva lógica e objetiva da vida; no abandono da visão de mundo da comparação e relatividade. É o caminho do auto-conhecimento que mencionamos anteriormente. A verdadeira identidade de um ser humano se revelará através do processo de auto-questionamento ou adoção da perspectiva subjetiva. Seria verdadeiramente uma tolice para um guerreiro ferido por uma flecha envenenada formular perguntas tolas como: — De que material foi fabricada esta flecha? – Quem foi o inimigo que atirou? Embora o estudo da religião fale do caminho para a libertação do sofrimento humano, infelizmente existem muitos religiosos que não conseguem se libertar da perspectiva lógica objetiva. Eles procuram estudar e comparar os vários caminhos existentes ou Dharmas. Dedicam-se a comparar um caminho com relação ao outro, e os esforços estão sendo cultivados dentro do mundo relativo, não importando a quantidade de estudos que possam estar realizando. Este tipo de esforço é o mesmo tipo de especulação fútil daquele guerreiro ferido na parábola do Buda. Na verdade, estudiosos acadêmicos são aqueles que caminham na direção oposta da verdadeira libertação. Como são miseráveis os budistas acadêmicos! Suas contradições são maiores que a dos membros de uma união trabalhista que lutam pela paz no mundo. Por exemplo, se um pesquisador se dedicar a comparar certas passagens do Sutra Sukyavativyuha esteja certo de que estará rumando para o inferno. Uma vez que está interessado apenas em comparar ou examinar um Dharma com outro, seu próprio eu não estará sendo examinado. Ele é totalmente ignorante do único caminho para a libertação do sofrimento que é o caminho do auto conhecimento. Quando li recentemente um livro sobre o Budismo fiquei totalmente chocado e surpreso ao encontrar títulos como “Ciências do Shin Budismo”. Imediatamente me lembrei do meu mestre Rev. Akegarasu que nunca imaginaria um budista utilizar tal expressão horrorosa. Nesses momentos de reflexão me recordo do meu querido mestre com uma renovada sensação de admiração, reverência e gratidão.
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