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Kenryo Kanamatsu
Shinshu ou a verdadeira religião é, como o nome indica, uma religião baseada na verdade. Interiormente nós temos uma esperança que sempre vai além de nossa experiência estreita; é a fé imortal na mais profunda verdade em nós. Os fatos são muitos, mas a verdade é uma e encontrar a unidade é possuir a totalidade. Através de toda a diversidade do mundo o uno está em nós sempre buscando a unidade, unidade em conhecimento, unidade no amor, unidade nos propósitos da vontade e sua alegria mais elevada é quando realiza a identidade de tudo com a unidade eterna. Se as raízes mais profundas de nossa natureza não encontrassem seu solo permanente na verdade central e uma, então nossa consciência estaria sempre restrita à perspectiva imediata do presente estreito, e perderíamos nossa perspectiva interior; então todos opostos sempre permaneceriam opostos e nunca encontraríamos um médium interior através do qual nossas diferenças sempre tenderiam a se encontrar; então não teríamos entendimento nem compreensão dos corações nem cooperação na vida. O homem é mais em verdade do que é em fato. Essencialmente nós somos espírito. Nós não pertencemos a esse mundo da forma que nossos sentidos e entendimento agora nos mostram. Nós pertencemos agora mesmo a uma realidade mais alta e mais rica do que essa. Assim, temos o sentimento de que somos muito mais do que parecemos ser no momento, que o estado ainda não atingido por nós é mais real e verdadeiro do que o da nossa experiência imediata. Quem entre nós se concebe senão como um objeto remoto de algum processo ideal de chegar a si e despertar para a verdade sobre a sua própria vida? Quem sou eu? Nenhum processo finito de descobrir e definir pode exaurir todo meu verdadeiro significado. Nossa natureza real, nosso verdadeiro ser é um objeto evasivo para qualquer busca temporal. Ele constitui, por assim dizer, o aspecto completo e genuinamente oculto de nossa vida comum. Os portões parecem fechados onde quer que tentemos penetrar nesse mundo tão familiar e precioso, ainda que tão oculto. É um segredo muito precioso que está além dos sentidos e do entendimento humano. É o objeto da nossa vontade, mas não dos sentidos, nem ainda do pensamento abstrato; do nosso amor, mas não da nossa confissão verbal, e não importa que os sentidos enganem, ou quão mal o pensamento defina, nós permanecemos fiéis a seu ideal. Como temos esse sentimento por nosso ser futuro que está fora da nossa consciência presente, assim temos um sentimento por nosso ser maior que está fora dos limites de nossa personalidade. Não existe nenhum homem que não tenha esse sentimento em certo grau, que nunca tenha sacrificado seu desejo egoísta em benefício de alguma outra pessoa, que nunca tenha sentido prazer em suportar alguma perda ou problema para ajudar a alguém. É uma verdade que o homem não é um ser separado porque ele tem um aspecto universal. Nossas raízes têm que descer fundo no universal para atingir a grandeza da personalidade. Se tivéssemos sido feitos para viver em um mundo onde nosso próprio ser fosse o único fator a considerar, então essa seria a pior prisão imaginável para nós, porque nossa alegria mais profunda está em crescer através de uma união cada vez maior com a totalidade. Isso, porém, seria uma impossibilidade se não fôssemos ligados pelos laços de uma lei comum a todos e mais profunda e verdadeira que a necessidade. Apenas despertando para essa lei universal (Dharma) – a verdade implícita em todas as coisas, o propósito supremo que age em nosso ser, nos tornamos grandes e realizamos a vida universal. A função da religião não é destruir o propósito supremo que age em nosso ser, por segui-lo tornamo-nos grandes e realizamos a vida universal. A função da religião não é destruir nosso propósito interior, mas realizá-lo. Como a criança no útero de sua mãe tira seu sustento através da união de sua vida maior de sua mãe, assim nosso ser é alimentado apenas por meio do reconhecimento de sua proximidade com o eterno, através de sua comunicação com o infinito, pelo qual é circundado e alimentado, enquanto nosso ser é obscurecido pelas ações feitas pela compulsão do desejo egocêntrico ou do medo. Na verdade, não somos seres isolados. Estamos correlacionados uns aos outros na mais profunda harmonia que existe entre nós e nossos companheiros. Nosso amor pela vida é realmente nossa vontade de continuar nossa relação com a totalidade, com o mundo inteiro. É essa boa vontade ou vontade amorosa que faz seu trabalho na profundidade do ser social. É a disposição pelo bem da sociedade. É a vontade amorosa. Ela transcende os limites do presente e do pessoal. Está do lado do infinito, do universal. Como a mãe se revela no serviço de suas crianças, assim nossa liberdade não é liberdade da ação, mas liberdade na ação que só pode ser atingida no trabalho do amor. A emancipação do nosso ser está em realizar a boa vontade e o amor. É o que Sakiamuni descreve como extinção (Nirvana) – a extinção do egoísmo. Quando nossa mente egocêntrica se irrita com a lei universal, nos tornamos moralmente pequenos e sofremos. Em uma tal vida egocêntrica, nós sempre vivemos atrás de barricadas e nossos lares não são lares reais, mas barreiras artificiais à nossa volta. É a nossa vida egocêntrica que cria divisões e desunião em toda parte e dá origem a misérias de todos os tipos. E ainda nos lamentamos de não sermos felizes, como se as misérias não fossem de nossa própria criação. Amida, o espírito universal, espera nos livrar dessa casa-prisão de miséria e sofrimento e nos coroar com a alegria, mas nosso ser fechado não a aceita. Nosso apego, nossa cobiça, nosso desejo de conforto resulta em empobrecer o homem ao seu valor mais baixo. Ele tira seu único valor em ser útil; torna-se uma máquina e é definido pelo valor de mercado do serviço que podemos esperar dele. É auto-engano em grande escala. Nossos desejos cegam-nos para a verdade que está no homem, e esse é o maior erro que cometemos em relação à nossa própria humanidade. Ele mata nossa consciência e é um método gradual de suicídio espiritual. Mas quando pelo amor conhecemos como espírito, o conhecemos como nós próprios. De uma vez sentimos que crueldade com ele é crueldade conosco, e fazê-lo pequeno é roubar e humilhar nossa própria humanidade. Então, se queremos viver uma vida real e verdadeira, temos que entregar nosso auto-poder ao poder universal, e perceber que é nosso próprio poder. O poder universal que é manifesto na lei universal é na verdade uno com o nosso próprio poder. Realmente ali não há limite para nosso poder, porque não estamos fora do poder universal que é a expressão da lei universal. A mesma energia que vibra e passa em formas infinitas do mundo se manifesta em nosso ser interior como sabedoria, e não existe ruptura na unidade. É nossa ignorância que nos faz pensar que nosso ser como ser é real e tem sentido completo em si. Quando temos essa visão errônea do ser, então tentamos viver de maneira que faça nosso pequeno ser o objetivo supremo de nossa vida. Então estamos condenados ao desapontamento como o homem que tenta alcançar seu destino, perseguido a poeira da estrada. Nosso ser não tem meios de nos prender, porque sua natureza real é transcender-se, e realizar o sentido supremo (Dharma) de si. Aí está a liberdade humana – a naturalidade (jinen), como Shinran, o fundador da religião verdadeira (Shinshu) o coloca. À primeira vista parece que o homem a considera como a liberdade através da qual ele alcança oportunidades ilimitadas de autogratificação e autoengrandecimento. Mas certamente isso não é confirmado na história. Nossos homens reveladores sempre foram aqueles que viveram uma vida de auto-sacrifício. A natureza mais elevada no homem sempre busca algo que a transcenda e seja sua mais profunda verdade; que pede todo o seu sacrifício e faz desse sacrifício sua própria recompensa. Esse é o Dharma do homem, a religião do homem e o ser do homem, é para levar esse sacrifício ao seu altar. Nós podemos olhar para nosso serem seus dois diferentes aspectos. O ser que se mostra, e o ser que se transcende e assim revela seu próprio significado. Para mostrar-se ele tenta ser grande, colocar-se no pedestal de suas acumulações e prender tudo a si. Para revelar-se ele entrega tudo que tem, tornando-se perfeito como uma flor que brota da lama. A lâmpada contém seu óleo que ela guarda em si sem a menor perda. Assim, ela é separada de todos os objetos em volta e é avarenta. Mas quando iluminada, ela encontra de uma vez seu sentido, sua relação com as coisas próximas e distantes é estabelecida e ela espontaneamente sacrifica seu estoque de óleo para alimentar a chama. Essa lâmpada é o nosso ser. Enquanto se apega a suas posses mantém-se obscuro, sua conduta contradiz seu verdadeiro propósito. Quando encontra a iluminação ela se esquece em um momento, mantém a luz elevada e a serve com tudo que tem; porque aí está sua revelação. Essa revelação é a liberdade de que Sakiamuni falava. Ele apelaria à lâmpada que entregasse seu óleo. Mas uma entrega sem sentido é uma pobreza ainda maior a que ele nunca se referiu. A lâmpada tem que entregar seu óleo para a luz e assim liberar o propósito que traz em si. Isso é emancipação. O caminho que Sakiamuni indicou não era apenas a prática da auto-abnegação, mas a plenitude do amor. Aí está o verdadeiro significado do Budismo. A naturalidade (jinen) de que Shinran falou não é nada menos que essa emancipação do ser; uma santa liberdade através da fusão do nosso auto-poder (jiriki) com o Outro Poder (tariki), através da entrega à vontade eterna; uma familiaridade com Amida – a luz infinita. Isto é o que Shinran queria dizer quando falava que a via direta para a libertação é a fé absoluta em Amida.
A fé religiosa não é uma simples crença auto-complacente. Ela deseja ser confirmada pelo Ensinamento. Simplesmente dizer “eu creio”, não é suficiente, “eu creio” deve ser confirmado pela autoridade da doutrina. Se minha fé é verdadeira, ela tem que ser confirmada pelo ensinamento do iluminado; e se este ensinamento é realmente verdadeiro além de ser investido com Autoridade tradicional, ele tem que ser confirmado por minha experiência interior. Se houver um conflito entre a fé e a doutrina, isso quer dizer que: ou a Fé não tem fundamento sólido e valor permanente, sendo uma agitação momentânea do ardor da alma; ou a doutrina não possui nenhum elemento, seja de valor ou de eternidade nela, a autoridade que lhe é convencionalmente atribuída é puramente formal e superficial. Quando ambas são genuínas, existe a harmonia perfeita entre elas e confirmam-se uma à outra. Ambas testemunham a verdade uma e eterna. Shinran (1173-1262); o fundador do Shinshu, procurou a confirmação da sua Fé no ensinamento da Sakiamuni. De fato, o KYO-GYO-SHIN-SHO (Doutrina-Prática-Fé-Realização), o texto fundamento do Shinshu, que foi escrito por Shinran, é uma coletânea de cento e quarenta e três passagens coletadas dos vinte e um sutras em que Shinran encontrou sua fé totalmente confirmada. Além do mais sua confirmação estava também no ensinamento do seu próprio mestre Honen. No Tannisho (Tratado de Lamentação das Heresias), compilado por Yuienho, um de seus discípulos, Shinran declara: “no que se refere a mim Shinran não tenho outra alternativa além de crer no que meu mestre me ensinou: deixe sua libertação com Amida, pronunciando o Nembutsu com simplicidade de coração. Se o Nembutsu é verdadeiramente a causa de meu nascimento na Terra Pura ou se é ato que me levará ao inferno, eu não sei nada a esse respeito. Mesmo que eu tenha sido enganado por Honen-shonin e tenha que ir para o inferno por recitar o Nembutsu, eu não tenho nada a lamentar. E pela seguinte razão: se eu, sendo capaz de atingir o Budato pelo esforço em outras práticas que não o Nembutsu, fosse para o inferno por pronunciar o Nembutsu, então haveria uma razão para me lamentar de haver sido enganado; mas não sou capaz de nenhuma prática na verdade e assim o inferno será minha última morada de qualquer forma. Se o Voto Original de Amida é verdadeiro, o ensinamento do Buda Sakiamuni não pode ser falso. Se o ensinamento de Buda Sakiamuni é verdadeiro, os ensinamentos de Zendo não podem ser falsos. Se o ensinamento de Zendo é verdadeiro como pode ser falso aquilo que Honen me ensinou? Se o ensinamento de Honen é verdadeiro não posso dizer que aquilo que eu Shinran digo é verdadeiro? Enfim esta é a minha fé. Assim é um problema seu se você aceita o Nembutsu ou tem fé nele, ou se você o rejeita. Nisso nós vemos como a experiência espiritual de Shinran se harmoniza não só com o ensinamento de Sakiamuni, mas também com o do seu mestre Honen. Quanto à doutrina deixa de ser considerada como algo exterior à vivência interna ela se torna de uma vez o princípio vivo da conduta; e quando a conduta é liberada da coerção e se torna o movimento livre e natural do espírito, a alegria expressa-se através do trabalho cotidiano. No Shinshu os três Sutras seguintes são considerados como a fonte primeira do ensinamento. 1. O grande Sutra Sukhavati-Vyuha: neste sutra é apresentado o discurso de Sakiamuni no Gridhakuta em Rajagriha em benefício de Ananda e Maytreia que se refere à magnificência da Terra Pura de Amida e seu Voto Original de salvar todos os seres. O Sutra foi Traduzido para o Chinês por Sanghariarinan no ano 252 D.C. O texto chinês é chamado Daí-Muryo-Jukyo (sobre a vida eterna). 2. O Amitayur-dhyana Sutra (Contemplação do Buda da Vida Ilimitada) ele apresenta o sermão de Sakiamuni no palácio real de Rajagriha, que foi proferido para esclarecer Ananda e a rainha Vaidehi sobre a possibilidade de todos os seres renascerem na Terra Pura e atingirem a vida eterna. Ele foi traduzido para o Chinês por Kalayasa no ano 424 A.C. O título do texto chinês é Kanmuryoyukyo (Contemplação do Buda da Vida Ilimitada). 3. O pequeno Sutra Sukhavati Vyuha: ele apresenta o que Sakiamuni pregou a Sariputra no jardim de Anatapindada, Saranasti, sobre a Terra Pura e as maravilhosas virtudes de Amida. Kumarajiva traduziu-o para o chinês no ano de 402 D.C. Amida-Kyo (sobre Amida) é o título do texto chinês. Existiram muitos predecessores de Shinran, indianos, chineses e japoneses, que como ele expuseram o verdadeiro (Shin) ensinamento de libertação pela fé e desses o Shinshu considera os seguintes sete patriarcas como os que mais contribuíram para o desenvolvimento da doutrina: Ryuju (Nagarjuna, 150-250) e Tenjin (Vasuhandhu, 320-400) na Índia, Donran (T'an Luan, 476-542), Doshaku (Tão Ch'ao, 562-645) e Zendo (Shan-Tao, 613-681) na China, Gueshin (942-1017) e Genku (1133-1212), conhecido popularmente como Honen no Japão.
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