O príncipe Shôtoku e a cultura de sua época


No final do séc. VI a influência cultura da China sobre a evolução cultural do Japão se intensificou muito, principalmente com o envio de missões oficiais à China. A dinastia Sui unificou a China em 589 e se tornou muito poderosa. A corte japonesa resolve estabelecer relações com a poderosa nação continental, a fim de receber sua cultura adiantada e consolidar o poderio nacional.

No ano de 607, foi enviado Imoko Ono, com o objetivo de assimilar a avançada cultura do império chinês. O imperador de Sui retribuiu a visita enviando uma delegação chefiada por Hai-sei-sei. No regresso desta, Imoko Ono de novo chefia uma delegação composta de estudantes como Kuromaro Takamuko (? – 654) e Shôan Minamibuchi e o sacerdote Min (? – 643). Os enviados permaneceram muitos anos na corte de Sui e de Tang, que veio a suceder àquela, e os conhecimentos por eles adquiridos serviram, posteriormente, como importantes subsídios na elaboração da Reforma Taika (645-46). O regime político chinês, seu sistema administrativo, suas artes e ciências, estudados e assimilados, contribuíram de modo considerável para a evolução cultural do Japão.


Príncipe Shôtoku

No entanto, na corte japonesa travavam-se muitas lutas políticas em torno do poder. Clãs poderosos disputavam, por todos os meios, a hegemonia política, ameaçando até a estabilidade da dinastia.

Surge então a grande figura do príncipe Shôtoku que, no reinado da imperatriz Suiko (592-628), assume a regência (de 593 a 622) e introduz profundas reformas administrativas na máquina governamental. Entre elas se destaca a Lei do Funcionalismo, decretada em 603, segundo a qual os servidores públicos são divididos em doze classes, cada qual usando um barrete de cor diferente. Com a nova legislação, abre-se o caminho da carreira oficial a qualquer súdito (fidalgo) competente, não se limitando mais aos filhos de nobres influentes. Outra medida histórica é a promulgação da chamada Constituição de Dezessete Artigos (604). Segundo o prof. Ricardo Mário Gonçalves, da Universidade de São Paulo, estudioso de assuntos japoneses, apesar do nome Constituição (kempô), trata-se na prática de uma espécie de ordenação, destinada a disciplinar os funcionários do Estado. Uma lei baseada em ensinamentos moralizantes de Confúcio (551-479 a.C.), ressalta a necessidade de correta conduta moral dos servidores públicos, de exercer administração justa, coibir tributação abusiva, consultar o maior número possível de pessoas para resolver questões importantes de interesse geral, etc.

Por outro lado, Shôtoku, como ardoroso adepto do Budismo, dedica-se com entusiasmo à difusão da doutrina de Shakyamuni, chegando a escrever livros sobre essa religião.

Introduzido no Japão através de imagem e sutras (escrituras budistas) presenteados pelo rei de Paikché ao imperador Keitai (507-531), o Budismo tem aceitação entusiástica por parte de coreanos naturalizados e alguns poderosos clãs como os Soga, muito relacionados com aqueles. Ao receber a proteção da Corte, a recém-importada religião se expande rapidamente, e já no período Asuka (552-646), dispõe de importantes templos como o Hôkôji (ou Asuka-dera) do clã Soga e o Shitennôji e Hôryûji, erigidos pelo príncipe Shôtoku.

Na mensagem ao soberano japonês que acompanha os sutras, o rei de Paikché diz recomendar o Budismo que, embora difícil de ser entendido, constitui a melhor doutrina religiosa e proporciona a realização de todos os desejos humanos. A Corte japonesa coloca a questão da aceitação da nova fé aos clãs que participam da cúpula governamental. Estes se dividem em duas facções: de um lado, o clã Nakatomi, hereditariamente encarregado da liturgia shintoísta, e os Mononobe, chefes militares, responsáveis pela guarda do palácio imperial, se manifestaram contra a nova crença; de outro lado, se encontram seus rivais, os Soga e seus aliados favoráveis ao Budismo. Entre marchas e contramarchas na política palaciana, a religião recém-chegada recebe grande impulso no tempo da regência de Shôtoku, assumindo, com o tempo, características de religião oficial, ofuscando o nativo e tradicional Shintoísmo.

George B. Sansom informa em seu Japan – A Short Cultural History que, por volta de 624, existem 46 templos budistas (as grandes famílias competem entre si em construí-los), 816 monges e 569 monjas. Os mestres de Shôtoku são coreanos, chegam numerosos sacerdotes, monges, estudiosos e artistas de Kokuli e Paikché. Fixam-se no Japão, exercem várias profissões, casam-se com japonesas, criando assim um valioso núcleo de cultura importada e promovendo a fusão de elementos raciais diferentes – “o que dever ter sido de grande vantagem para o Japão”, observa o conhecido historiador.

“Não temos conhecimentos exatos sobre suas origens, mas sabe-se que, enquanto Paikché mandava professores ao Japão, trazia mestres da China; é altamente provável, por esta e outras razões, que muitos imigrantes chegados ao Japão nesse período – segunda metade do século VI – fossem das cortes de Liang e Wei, chegados via Coréia”, opina Sansom.

As belas-artes e os estudos de clássicos chineses se desenvolvem muito, como conseqüência da adoção do Budismo pelo príncipe regente, considerado verdadeiro gênio por sua inteligência invulgar e extraordinária visão política.

Shôtoku manda construir muitos templos budistas, sendo o mais célebre o mosteiro Hôryûji, erguido em 607, na aldeia de Ikagura, a sudoeste da atual cidade de Nara. Erigido ao lado do palácio residencial do príncipe, numa suave colina, constitui vista magnífica, com suas grossas colunas internas de madeira, pavilhão dourado e o pagode que se lança para o céu. Destruído por incêndio provocado por raio, e reconstruído em 670, o Hôryûji hoje existente – conjunto de muitos prédios – contém a mais antiga construção de madeira do mundo. Obra de arquitetos e operários especializados naturalizados, possui ricas imagens (estátuas) de Buda e esplêndidos murais.

Hôryûji - Kondô (Pavilhão Dourado)

No seu interior conservam-se ainda hoje belas esculturas de bronze e de madeira, além de pinturas e objetos de artesanato muito valiosos.

A estrutura do Kondô (Pavilhão Dourado) oferece um acabamento perfeito.

O pagode de cinco andares, as imagens chamadas Trindade de Buda e Kudara Kannon, um santuário portátil, chamado Tamamushi-no Zushi (altura de 233 cm), constituem tesouros nacionais especiais.

Infelizmente, um incêndio danificou os famosos murais do Kondô, muito semelhantes aos afrescos de Ajanta (Índia), da mesma época.

Temos ainda a imagem de Miroku Bosatsu (Maitreya Bodhisattva), e mandara (mandala), pintura que descreve o mundo espiritual (budista) de várias formas. Ambos são tesouros artísticos nacionais e se acham conservados no templo Chûgû de Nara.

(...)

Sacerdotes budistas coreanos naturalizados japoneses, como os monges Donchô – que ensina os métodos de fabricação de papel e pintura a nanquim (tinta preta) – e Konroku (século VII), introdutor do calendário, trazem valiosas contribuições à evolução cultural do Japão.

Uma curiosidade: o desenho (arabesco), chamado nindô karakusamoyô em japonês, encontrado com certa freqüência em obras arquitetônicas e nos objetos de arte aplicada (ou decorativa) do período Asuka, teria sua origem no antigo Egito e Assíria, chegando ao Japão através de longa caminhada no tempo e no espaço, via Grécia, Pérsia, Bizâncio e China.

Os templos budistas do período Asuka são do estilo continental, cobertos de telha, com pagodes de vários andares (em geral cinco), imponentes e exóticos. Constituem símbolos do poder espiritual e temporal, em substituição aos grandes mausoléus antigos (kofun). Ao lado da arquitetura budista, desenvolvem-se outras artes como a pintura, a escultura e o artesanato em geral, todos sob influência chinesa e coreana.

Além do Budismo, a introdução do kanji (escrita ideográfica chinesa) e dos ensinamentos de Confúcio e o aperfeiçoamento da metalurgia e da arte cerâmica acrescentam novos e poderosos elementos culturais à civilização nipônica. A escrita, principalmente, se torna a grande alavanca propulsora da evolução cultural do povo nipônico.

Observe-se que já então os japoneses possuem intensa paixão pelo saber e uma peculiar aptidão para importar, selecionar, adaptar e adotar, para seu proveito, idéias e técnicas alienígenas, assimilando-as e incorporando-as à sua própria cultura. Característica que se mantém através dos séculos até o presente.

Como a sede do trono fica então na localidade de Asuka (próxima à atual Nara), temos o chamado período da Cultura Asuka.


Bibliografia

Yamashiro, José (1913-), História da Cultura Japonesa, São Paulo: IBRASA, 1986. (Biblioteca histórica, explorações e descobertas; 34) p. 38-43.

Hôryûji - Gojû-no-Tô


Templo Budista Apucarana Nambei Honganji
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